Este trabalho foi desenvolvido na disciplina História Contemporânea com o objetivo de analisar a sociedade de maio de 1968 na França a partir das observações de um filme.
Os Sonhadores
1. Sinopse narrativa:
Maio de 1968 na França. O jovem estudante americano Matthew vai para Paris estudar francês e acaba se apaixonando pelo cinema, arte através da qual conhece Theo e Isabelle. A amizade entre eles começa a florescer e ambos experimentam o amor. Diante dessa paixão eles se isolam do mundo, principalmente do que estava acontecendo na França.
2. Contexto de produção do filme:
O filme dirigido por Bernardo Bertolucci e lançado em 2003 foi baseado no romance de Gilbert Adair, “The Holy Innocents”. Assim como fez anteriormente com o apartamento vazio de “O Último Tango em Paris” (1972) e com o casarão italiano de “O Assédio” (1998), o diretor enclausura os personagens entre as quatro paredes do apartamento parisiense, usando o ambiente para mostrar como o desejo surge e cresce até chegar a ponto de as pessoas não conseguirem controlar seus impulsos.
3. Desenvolvimento da narrativa:
Matthew, um americano de 19 anos está em Paris para estudar francês. Lá conhece a Cinémathèque Française (uma espécie de escola para diretores) localizado no Palácio de Chaillot e apaixona-se pelo cinema. Para o diretor Bernardo Bertolucci esse lugar é considerado como uma catedral do cinema. O homem por trás dessa paixão, diretor e fundador da Cinémathèque é Henri Langlois, que preservava filmes e exibia tudo o que encontrasse. Em fevereiro de 1968 o governo o demitiu por administração incompetente. E no dia 14, três mil pessoas foram ao Palácio de Chaillot protestar. Esse evento foi recriado no filme, que também conta com cenas de arquivo. Foi nesse protesto que Matthew conhece Theo e Isabelle, irmãos gêmeos, e a partir daí surgiria uma grande amizade. O jovem americano passa a morar com os dois depois que seus pais vão viajar, e nesse período os três descobrem a sexualidade e passam a maior parte do tempo dentro do apartamento, sonhando e alheios ao que estava acontecendo lá fora, durante o fechamento temporário da Cinémathèque.
Os três jovens tinham em comum o amor pelo cinema, paixão está que tinham muitos dos jovens naquela época na França. Nos anos 1960, Paris era a capital dos cinéfilos e lançou-se o cinema novo, chamado “A Nova Onda”. Para o diretor, o francês era a língua do cinema e ao fazer esse filme, ele se colocou frente a frente com o seu passado. Durante o período em que ficaram no apartamento, os adolescentes faziam brincadeiras de cinéfilos, como dizer uma fala e adivinhar de qual filme era ou interpretar uma cena. O filme faz citações de outros filmes através dessas interpretações.
Cinema, sexo e política era o lema dos jovens naquela época, que também falavam de música, rock’n’roll e filosofia. Nos anos 1960 havia união, coisa que já não existe mais. A transgressão era a missão dos jovens naqueles tempos, voltar-se contra valores estabelecidos. Isso fica claro quando os dois irmãos cometem incesto. Em 1968 os estudantes, cinéfilos, toda uma geração descobriu que não estava à margem da sociedade, como acreditava antes. Descobriu que conseguiria causar verdadeiras mudanças. Os ataques da polícia despertaram a população estudantil e eles achavam que as autoridades exageravam e sentiam-se sufocados pelo paternalismo e distância do presidente Charles de Gaulle. O filme mostra uma harmonia entre cinema, política, música e sexo e a descoberta de como essas coisas poderiam unir-se e interagir umas com as outras, como poderiam combinar-se em um tipo de harmonia não mais vista.
Em março de 1968 houve uma revolta estudantil na universidade de Nanterre que ganhou o apoio de outros estudantes, principalmente da universidade de Sorbone. A revolta começou quando os alunos começaram a reivindicar o direito de encontrar pessoas do sexo oposto, discutir política, filosofia e a vida em geral nas residências estudantis. Em maio o movimento tinha se tornado um protesto nacional contra o regime político francês. Passeatas estudantis, organizadas pela UNEF (Union nationale des étudiants de France) foram dissolvidas com violência cada vez maior pela CRS, a polícia de De Gaulle. Indignados os estudantes ergueram obstáculos nas ruas centrais de Paris que davam acesso ao Quartier Latin, antigo centro universitário da cidade. A maior batalha deu-se na “noite das barricadas”, em 10 de maio. A essa altura ganharam as simpatias de outros setores sociais: sindicalistas, professores, funcionários, jornaleiros, comerciantes, bancários aderiram à causa estudantil. De protesto estudantil contra o autoritarismo e o anacronismo das academias rapidamente transformou-se, com a adesão dos operários, numa contestação política ao regime gaulista. Foi a primeira vez na França em que aquela geração provocou mudanças. O aparelho de repressão educacional no ensino superior era mais forte que em outros lugares onde ele também tinha grande poder. Os grandes líderes das faculdades tinham um poder enorme, enquanto os alunos eram reprimidos. No verão desse mesmo ano, após o país ter paralisado por completo, os sindicatos fizeram acordo com o governo e a revolta estudantil esfriou.
Muitos diretores daquela época estavam envolvidos com pequenos grupos políticos; eram atraídos pelo Maoísmo e pela Revolução Cultural. Em 1968 também estava acontecendo a Guerra no Vietnã (as negociações de paz aconteciam em Paris); foi também o ano da morte de Martin Luther King, cujo assassinato provocou uma violenta onda de protestos; o movimento da contracultura estava em ascensão; foi também o ano da Primavera de praga; aumentava a insatisfação da juventude universitária no Brasil com o regime militar. Tornou-se um ano mítico porque foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível.
Quando o tijolo quebra a janela do apartamento, ele quebra os sonhos dos personagens da história, os coloca frente a frente com a realidade, e de certa forma simboliza o que aconteceu na França em 1968, quando manifestações e protestos tomaram as ruas de Paris. Ao “acordarem” para a situação, os jovens embarcam em outro sonho, o da revolução. Entretanto, somente Theo mergulha de cabeça na revolta, junto com sua irmã. Matthew não acreditava nesse tipo de mudança pela força física. Nesse ano em todo o modo havia uma percepção aguçada da força do protesto como ação política.
4. Comentário pessoal:
O filme contém várias cenas eróticas que fazem parte da descoberta da sexualidade pelos jovens numa época em que reivindicavam o direito a liberdades, como a do que fazer com o próprio corpo, por exemplo. Fica clara a idéia de que eles estavam mesmo sonhando, pois ao mesmo em que descobriam os prazeres carnais, estavam alheios ao que acontecia fora do apartamento. O diretor quis representar uma síntese do que foi maio de 1968 na sua visão: os três jovens representavam uma alienação que foi sendo quebrada através da transgressão até chegar ao clímax da revolução.
5. Ficha Técnica:
Nome do filme: The Dreamers (Os Sonhadores)
Diretor: Bernardo Bertolucci
Países de produção: Itália, França, Estados Unidos e Reino Unido
Ano de lançamento: 2003
Duração: 115 minutos
Roteiro adaptado do romance de Gilbert Adair, também roteirista do filme
A evolução
Há 17 anos