segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Roteiro de matéria textual

Esse é um exemplo de roteiro de matéria textual, desenvolvida a partir de uma pauta, que usamos no rádio.

Manchete:
Adaptação do seriado Speed Racer para o cinema deixa os fãs divididos.

Chamada:
Produzido pelos mesmos criadores de Matrix, os irmãos Andy e Larry Wachowski, o longa é escandalosamente colorido, brilhante, barulhento e rápido. O filme consegue agradar aqueles que estão descobrindo Speed Racer agora e os fãs mais antigos.

Cabeça:
Lançado no Brasil no começo de maio, a adaptação do célebre quadrinho japonês e desenho animado criados na década de 1960 por Tatsuo Yoshida, Speed Racer é um dos principais lançamentos da atual temporada (estréia em 570 salas no país, cerca de 80 delas em São Paulo). A muito aguardada volta de Andy e Larry Wachowski à direção conta a história do jovem viciado em corridas de automóveis, Speed Racer, herdeiro de uma família com longa tradição no esporte. O filme dos Wachowski mistura a lógica visual dos animes com atores reais. Para atingir isso, os irmãos basicamente trocaram as câmeras por computadores. O jornalista Renato Siqueira, fã de animes e mangás, a princípio não gostou da idéia de ser uma produção americana, mas gostou do resultado final.

Ilustração:
"Apesar de eu não curtir muito os efeitos que eles usam no filme, que é muito cromaqui, é muita coisa em 3D, os atores contracenando com um fundo que não existe e tal. Tirando isso, o filme ficou uma coisa bem bacana, porque consegue agradar aquele moleque que está descobrindo o que que é o Speed Racer agora e aquele cara que é fã mais antigo, que sabe como são os veículos, a série, os personagens e conhece bem e tal”.

Passagem:
De acordo com o jornalista, os irmãos Wachowski reuniram e reproduziram muitos elementos do mangá.

Ilustração:
"Eles conseguiram reunir bastante elementos do mangá. E assim, como é dirigido pelos irmãos Wachowski, eles tentaram fazer a visão deles do mangá, eles tentaram pegar e produzir um mangá igual ao que a gente acha, como a gente lê os mangas, como a gente vê os quadrinhos japoneses. Tentaram pegar alguns elementos que eles tinham de cultura pop mundial, sabe, e asiática também e tentaram adaptar para uma versão cinematográfica”.

Passagem:
A adaptação agradou também quem não tinha conhecimento da série. O estudante Juliano Nequirito, apesar de não ter acompanhado o seriado, gostou da preocupação com os detalhes do filme.

Ilustração:
“Eu gostei do filme por certos detalhes, por exemplo, a preocupação em descrever a vida de certos personagens. Outras características, com relação ao carro ou aos competidores me pareceu que foi muito fiel ao desenho. O que mais me chamou a atenção foi a forma como os criadores conseguiram mesclar o filme, os personagens reais com o cenário todo colorido, que lembra muito os mangás japoneses”.

Passagem:
Entretanto, o cenário colorido do filme não agradou a todos. O estudante Leonardo Maturana achou o filme muito próximo ao desenho e produzido de uma maneira muito infantil e colorida.

Ilustração:
“Eu não gostei do filme, achei o filme ruim. Em relação a comparar com o seriado eu acho que ele ficou bem parecido com o desenho mesmo, ele foi muito fiel ao desenho, mas ele não trouxe nada de novo. Normalmente você espera algo um pouco diferente do que seja o desenho e achei que o filme foi muito infantil também, eles usaram muitos recursos coloridos, muitos efeitos especiais difícil de se engolir”.

Encerramento:
Opiniões à parte, o resultado pode ser conferido nas salas de cinema.


Assinatura:
Ricardo Gouvêa para o jornal Fala Barão!

Texto manchetado para rádio

Esse é um texto manchetado no modelo que é lido por apresentadores de rádio.

LOC 01: RECENTES ESTUDOS REALIZADOS POR PESQUISADORES JAPONESES ASSOCIAM O CONSUMO DO CHÁ VERDE AO MENOR RISCO DE DESENVOLVIMENTO DE ALGUMAS DOENÇAS.
LOC 02: COMO NO CASO DE CÂNCER DE PELE, PULMÃO, OVÁRIO E PRÓSTATA.
LOC 01: AS SUBSTÂNCIAS DE AÇÃO ANTIINFLAMATÓRIA E ANTIOXIDANTE BLOQUEIAM AS ALTERAÇÕES CELULARES QUE DÃO ORIGEM AOS TUMORES.
LOC 02: A BEBIDA DE ORIGEM ORIENTAL TAMBÉM AJUDA NO PROCESSO DE EMAGRECIMENTO, POR CAUSA DA SUA AÇÃO DESINTOXICANTE, DIGESTIVA E DIURÉTICA.
LOC 01: O IDEAL É FAZER O USO DO CHÁ EM CONJUNTO COM UMA DIETA SAUDÁVEL.
LOC 02: JÁ QUE O SEU USO EM EXCESSO PODE LEVAR A UMA GASTRITE DEVIDO À CAFEÍNA.
LOC 01: ELE TAMBÉM AJUDA A CONTROLAR A PRESSÃO ARTERIAL, ATIVA O SISTEMA IMUNOLÓGICO E DIMINUI O RISCO DE ARTROSE E OUTRAS DOENÇAS DEGENERATIVAS.
LOC 02: APESAR DO SEU SABOR AMARGO, O CHÁ AUXILIA AINDA NA PREVENÇÃO DE CÁRIES E COMBATE INFECÇÕES NA GARGANTA, QUANDO UTILIZADO EM GARGAREJOS.

Violência e Auschwitz

Trabalho desenvolvido na disciplina de Jornalismo Multimídia envolvendo conceitos de violência e o holocausto a partir da análise de alguns autores e discussão com professores



Durante o segundo semestre de 2007 o primeiro ano de jornalismo da Facamp (Faculdades de Campinas) trabalhou o tema da violência em Auschwitz com os professores Carlos Minchillo e Silvio Rosa. Como leitura fundamental foram debatidos em sala de aula o texto “Educação após Auschwitz”, de Theodor Adorno e o livro “É isto um homem?”, de Primo Levi.
Em conversa com Silvio Rosa a equipe do blogue Juventude & Violência debateu questões envolvendo violência, limbo, campo de concentração, individualismo e gestão, além de fazer referências a outros autores ligados ao assunto.
Sílvio Rosa Filho, 44 anos, é professor de filosofia e diretor adjunto da Facamp. É formado em filosofia pela Universidade de São Paulo, defendeu tese de doutorado sobre Kant, Hegel e o cinismo contemporâneo.

Introdução
Iniciando com a pergunta direta: quem é violento? podemos perceber que a resposta está na ponta da língua e parece bastante simples: violento é o outro; quanto a mim, o que me cabe é denegar a violência. É sempre o outro que aparece como indigitada terceira pessoa do singular e exerce a violência diretamente: bate, combate, rouba, seqüestra, aprisiona, tortura, humilha, estupra e mata. Ou, indiretamente, anônima terceira do plural: são os outros que exploram, oprimem, corrompem, discriminam, intimidam, apavoram, bombardeiam, excluem. Tudo se passa como se, entre mim e você – nós mesmos, portanto, menos o outro – fôssemos habitantes de um mundo distinto: cá entre nós, “cordiais”, propensos à generosidade, pacíficos, isentos de preconceito de raça ou de credo, intrinsecamente, seríamos os não-violentos.
A violência é costumeiramente exercida nesta vida e já na chamada seconde life. Ela não deforma apenas a vida doméstica; ela se manifesta nos fluxos e refluxos, no ir e vir dos itinerários de trabalho e lazer; nos próprios ambientes profissionais onde se azeitam os mecanismos de competição e de carreira; nos espaços e equipamentos que formatam o “tempo livre” sob moldes do entretenimento, da preparação e da iniciação multimidiáticas à violência. Logo, à força de se configurar tão onipresente, começamos a suspeitar que a violência é algo mais abrangente do que um fenômeno de conjuntura, algo mais sério do que uma ocorrência virtual. Imaginem um psicanalista de outras eras teletransportado num piscar de olhos para o interior desse quadro atual, um tanto sombrio e claustrofóbico: afora a multiplicação de casos clínicos de síndrome do pânico e a medicação cavalar de transtornos bipolares, ele poderia reconhecer, na maioria de nossos contemporâneos, sintomas de delírio paranóico; delírio certamente acentuado, porém, delírio dotado de um teor objetivo.

Hannah Arendt e os conceitos de: normais, o limbo, o inferno, o purgatório e o paraíso
Os “normais” seriam uma massa patologicamente ambivalente, bem-vinda para melhor gestão de desejos que se desdobram ao infinito (por definição, insaciáveis) e de medos que involuem rumo à fobia (inapaziguáveis). Em outros termos, quanto mais organizada é a violência, quanto mais ela assume a figura de uma tarefa rotineira, tanto pior e tão menos visível é o funcionamento dessa máquina de dominação a que estamos chamando de violência. Vocês estão lembrados de que Himmler, a partir de 1936 o homem mais poderoso da Alemanha, não era um “boêmio armado” como Goebbels (a expressão é de Heiden), nem um criminoso sexual como Streicher, nem um louco furioso como Robemberg, nem histericamente fanático como Hitler, nem um aventureiro como Göring. Himmler, o homem mais poderoso da Alemanha, demonstrou a sua suprema capacidade de organizar as massas, partindo do pressuposto de que a maioria dos homens não era nem boêmios, nem fanáticos, nem aventureiros, nem maníacos, nem loucos furiosos, nem fracassados, mas, acima e antes de tudo, bons chefes de família, empregados mais ou menos responsáveis, gente ordeira – numa palavra: “normais”. Hannah Arendet assinala o seguinte: o homem da massa, a quem Himmler organizou para os maiores crimes de massa jamais cometidos na História, tinha os traços do homem “normal”; de resto, o próprio Himmler era um filisteu, ou seja, tido como gente normal.
Hannah Arendt lembra que, por força do hábito, tentamos compreender psicologicamente a conduta dos presos dos campos de concentração e dos homens da SS, quando o que é preciso compreender é que a psique humana pode ser destruída mesmo sem a destruição física do homem. Como resultado surgem seres inanimados, que já não podem ser reconhecidos psicologicamente: surgem mortos-vivos num limbo onde o que importa não é o princípio niilista de que “tudo é permitido”, mas o princípio no qual o bom senso e as “pessoas normais” se recusam a acreditar: o princípio de que “tudo é possível”. Delineia-se, então, uma atmosfera patológica de irrealidade habitada por imaginações amedrontadas. É que, instintiva ou racionalmente, todo mundo tem alguma consciência do abismo que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos-vivos; por isso, os sobreviventes não conseguem oferecer senão uma série de ocorrências relembradas, que parecem tão incríveis tanto para os que as relatam como para os que as ouvem.
Também à mente de Hannah Arendt, na companhia da qual estamos certamente melhor do que sozinhos. No final d’O Sistema totalitário, ela considera que os campos de concentração podem ser classificados em três tipos correspondentes às três concepções ocidentais básicas de uma vida após a morte. Ao limbo correspondem as formas destinadas a afastar da sociedade todo o tipo de elementos indesejáveis, supérfluos e inoportunos: os refugiados, os apátridas, os marginais e os desempregados. O purgatório é representado pelos campos de trabalho onde o abandono se alia ao trabalho forçado, desordenado e, na maior parte das vezes, economicamente inútil. O inferno é representado literalmente por aqueles campos que os nazistas aperfeiçoaram e onde toda a vida era organizada, completa e sistematicamente, de modo a configurar um laboratório de dominação total e causar o maior tormento possível.
Em comum a esses três tipos de destino está o fato de que o paraíso estaria irremediavelmente perdido. E o certo é que dali ninguém passa para melhor. O purgatório se apaga como lugar de transição, sob a inscrição sinistra de Auschwitz: “o trabalho liberta”. Confinadas, na verdade essas massas humanas são tratadas como se já não existissem, como se o que sucedesse com elas não pudesse interessar a ninguém, como se já estivessem mortas. É como se algum espírito mau, acrescenta a autora, tomado de alguma loucura, brincasse de suspender essas massas por certo tempo entre a vida e a morte.
(Hannah Arendt viveu as grandes transformações do poder político do século XX. Estudou a formação dos regimes autoritários (totalitários) instalados nesse período - o nazismo e o comunismo - e defendeu os direitos individuais e a família, contra as "sociedades de massas" e os crimes contra a pessoa).
http://noticias.uol.com.br/licaodecasa/materias/ult1789u616.jhtm

Violência natural e violência revelada
Essas comparações e correspondências sem dúvida não indicam uma dificuldade em situar a violência, o seu avanço e a sua magnitude contemporâneas. Fossem apenas analogias, de um ponto de vista estritamente lógico não passariam de induções imperfeitas. Sucede que a lógica formal está desarmada para fazer frente ao argumento que se formula pela autoridade do capital financeiro. Não parece equipada para avaliar esse laboratório de administração total, regido pelo princípio de que tudo é possível, onde as emergências tradicionais de castigo teológico-político se reúnem, de modo peculiarmente sincrético, às estruturações de uma nova insensibilidade sócio-cultural, às dinâmicas do cálculo para gestão de catástrofes e aos investimentos para aprimorar a tecnologia da dominação até o absurdo. Para falar como os teólogos antigos, evitar explicações angelicais e buscar uma localização menos imprecisa do fenômeno em pauta, talvez seja oportuno transpor seu senso de discernimento e distinguir duas modalidades: a violência natural e a violência revelada.
A do tipo natural seria a violência banalizada num tempo unidimensional, numa eterna repetição no presente imediatista, pressupondo a acelerada desvalorização do passado e do futuro, a violência-entre-aspas-natural se exerce sem que seja preciso ter fé na ulterior eficácia das ações violentas. Como o futuro está destituído de lastro, essa modalidade de violência recorre à natureza como se esta fornecesse um arsenal de imagens contíguas: a sobrevivência toma ares de um tribunal de última instância; as regras do rebanho, de ordem inelutável; o predomínio dos mais fortes, de fato consumado; a imagem da espécie delineia o homem simultaneamente como mamífero efêmero e primata dominante. Haveria, ademais, uma autogratificação epidérmica por compreender o mundo da violência como ordenação por assim dizer natural. Assim, o movimento violento seria tal que contraria o senso-comum: precisamente por afastar os elementos massificados do seu lugar-natural-sem-aspas, coagiria tais elementos à aceitação da violência, artificialidade invisível.
A violência revelada seria a manifestação desse artifício com alguns matizes e uma dezena de preliminares. Sabemos que quando o tecido social vai se esgarçando pela concorrência selvagem, o recurso cotidiano à violência aparece como um meio aceitável para garantia da sobrevivência. À primeira vista a violência dita revelada é a que provêm de princípios estabelecidos ao lume de uma técnica ou tecnologia superiores, que o saber-fazer de um gestor de conflitos traduz em índices disto e daquilo, em roteiros mais ou menos eficientes de vigilância (big brother is watching you), em estratégias e táticas de expedição punitiva (hoje em nome do combustível fóssil, amanhã, por que não?, de lençóis freáticos). A violência revelada, entretanto, nunca é perfeita, nem exaustiva: digamos que, nela, algo se esconde ao mesmo tempo em que se manifesta. Para resumir: esse tipo de violência subtrai-se a si mesmo, ao passo que se revela em violências meramente pontuais ou em redes interligadas de violência. Em todo caso, a violência revelada estaria a um passo da violência negativa, aquela que se expande para outras esferas e que insiste, como a velha dialética, em nunca responder pelo nome.

Individualismo
A importância do individualismo é dupla. No primeiro lado dessa moeda, temos o individualismo tout court, ou seja, a crença de que o indivíduo possui uma realidade principal, absoluta ou quase sagrada, ao passo que a sociedade seria algo secundário, derivado, relativo. Ora, maior é o grau de isolamento ou de atomização social, mais propício é o terreno para a evolução do individualismo de massa e da violência coletiva que lhe é correlata; estes, inversamente, seriam menores ali onde pessoas se unem, atuam de comum acordo e abrem espaço para o exercício do poder, caso a política ainda pudesse ser escrita com letra maiúscula e não se reduzisse a prolongamento da violência por outros meios.
Do outro lado da moeda desenha-se a efígie do que Robert Bellah designou (Os hábitos do coração) como “individualismo expressivo”. Oposto ao individualismo utilitarista, sustenta-se que cada pessoa possui um núcleo único de sentimento e intuição, o qual deve ser desenvolvido ou expresso para que o indivíduo alcance a sua singularidade e para que ele possa, sob certas circunstâncias, fundir com outras pessoas, com a natureza, ou com o cosmos em sua totalidade. Nas palavras de Shapiro, a título de contra-exemplo, note-se que essa busca de integração e de síntese apresenta-se dotada de “conteúdo negativo”: quando Auguste Rodin, ao esculpir A porta do inferno, não encontrara a soleira onde instalar sua obra, deixou-a confinada às exposições em museu, ou então, à soleira de uma catedral invisível.
O que expressa a sorte dos que escaparam ao individualismo utilitarista? Retomem o livro de Primo Levi, É isto um homem?, em que se sucedem os ciclos do confinamento em campo de concentração: sair, voltar, trabalhar, dormir, comer, adoecer, sarar ou morrer. Se no século de Homero o poeta era o tecelão dos sonhos, no século da violência, o texto de Levi mais parece alinhavar pesadelos. Nestes, ganha dimensão expressiva um outro ciclo, o ciclo dos predicados atribuídos à figura dos prisioneiros: apaniguados, tosquiados, desinfetados, tatuados, enfileirados, ritualizados, “babelizados”, cotidianamente alucinados, hierarquizados, promiscuídos, “moribundizados” e assim por diante. Em É isto um homem?, o alvorecer surpreende os prisioneiros “como uma traição”. Na Odisséia, a chamada epopéia das auroras termina com a deusa da sabedoria: Palas Atena, disfarçada em Mentor, estabelecia um tratado de paz entre os partidos em conflito, cada um dos quais iria regressar para o seu lado; as armas, antes em punho, haviam feito ressoar as suas lâminas; mas afinal, sob a ordem da deusa, as espadas tilintaram por caírem ao chão.

A experiência de Auschwitz não cessou de se repetir.
É possível que, em tempos de invenção social desacelerada, a terrível atualidade do texto de Adorno resida justamente em seu fracasso. Mas, pelo que se viu, antes de obscurecer ou atenuar o obscurantismo, vale a pena não cair na cilada de tomar a violência como fato consumado. No final das Cidades invisíveis, Ítalo Calvino dizia haver duas maneiras de não sofrer o inferno de todos os dias. A primeira, a mais fácil, é também aquela onde a maioria se compraz: aceitar o inferno, dele tornar-se uma parte a ponto de sequer poder enxergá-lo; nas palavras de um jovem poeta, ter “alma de novela”. Abro parêntese: certa vez, alguém escaldado nesses assuntos frisou: assim como a felicidade completa é irrealizável, também irrealizável é a infelicidade completa. Isso significa que, em meio a sinais de alarme prestes a soar por toda parte, princípios inegociáveis de reciprocidade se insinuam e chegam a se instaurar: às vezes, fechando parêntese, preenchem vazios institucionais, criam valores simbólicos para ação conjunta. Mas, para voltar a Calvino, a segunda maneira de não sofrer o inferno de todos os dias é arriscada e requer uma atenção e um aprendizado contínuos: no meio do inferno investigar e saber reconhecer quem e o quê não é o inferno, fazer com que perdurem e ceder-lhes o devido lugar. Eu me arrisco a dizer que, embora permaneça improvável e não possa valer como panacéia, a educação para a autonomia, no meio do inferno, não é o inferno. E a juventude, acrescentemos, sitiada entre a adolescência intérmina e o ingresso cada vez mais tardio na idade adulta, talvez acorde de sua prolongada hibernação. Adorno era otimista uma vez que é muito difícil que Auschwitz não se repita, a tendência é que se repita, mas segundo ele é possível. O dever do educador é acordar para esse problema para não entrarmos em uma contagem regressiva para o fim do planeta, causado por razões humanas.

Auschwitz e gestão
Temos toda uma série de situações excepcionais em relação a uma vida em sociedade. Quando se viu Auschwitz, se viu uma sociedade administrada; uma administração no campo de concentração muito racional, muito calculada e muito eficiente, as pessoas não ficavam apenas aprisionadas, trabalhavam de graça, quer melhor negócio? Lá acontece a idéia de gestão. Tudo se tornou objeto de gestão, isso foi uma novidade em Auschwitz.
Administração faz parte de nossas vidas (relações pessoais, conflitos, casa, etc). A palavra gestão está em toda parte. Você termina uma análise com um psicanalista para lidar melhor com seus problemas. A cabeça das pessoas adota um modelo de administração. A primeira vez que a administração se tornou um modelo total da sociedade foi ali, era uma espécie de laboratório para aplicar os princípios de gestão. Existem muitas maneiras de você se organizar.
O mundo se transformou numa empresa que precisa dar lucro de maneira enxuta. Auschwitz foi então um laboratório. Um exemplo disso hoje é que o Estado brasileiro deve ser administrado como uma empresa para dar lucro e a maioria das pessoas pensa assim. Não fazia sentido antes, o Estado não era pensado para dar lucro, o Estado tinha interesses diferentes dos interesses das empresas. Interesses que dizem respeito à esfera privada. Foi possível então que se propagasse o que fosse bem sucedido, o marketing da idéia de gestão espalhou para a vida individual das pessoas e em grupo. É atual nesse sentido e a própria palavra “administração” tomou conta da cabeça das pessoas.
Seria essa administração um ato egoísta de cada indivíduo?
Não há a menor dúvida. Isso é uma violência, a partir do momento em que dizem para você como você deve pensar, já estão cometendo uma violência. O papel da educação é tirar o indivíduo daquilo que parece natural para que ele ingresse em uma vida social.
Adorno diz em seu texto que o emprego das palavras molda tudo o que você pensa. Se você usa a palavra “administra”, você já está dentro do campo de significação que foi inaugurado com Auschwitz. É isso que ele quer dizer quando a sociedade é uma sociedade totalmente administrada, o modelo de administração se tornou total e veio para ficar. Essa é uma das dimensões do problema, é a idéia de que a gestão se tornou um modelo das relações sociais. Não significa que ele funcione plenamente, significa que ele funciona como a referência a ser seguida.
O contra-modelo de Adorno é dizer que há uma domesticação das pessoas como se elas fossem bichos, e seguem regras, principalmente aquelas que elas não sabem que existem, que foram ditadas por um anônimo. As pessoas que roubam não seguem regras.
O dono de um grande Shopping sabe que o roubo está previsto, a regra existe porque o roubo é fato. Um administrador que sabe que sua loja corre risco de roubo, investe em segurança. E no final do ano ao fazer o inventário ele sabe que faltaram algumas peças de roupa que foram furtadas. A solução achada pelo administrador é embutir no preço das que são vendidas as que vão ser roubadas de modo a não ter prejuízo.O roubo é um nível de transgressão de regras. Quando estou na posição do administrador, eu enxergo um pouco o modo de funcionamento da sociedade que é um modo amoral. É impensável imaginar uma sociedade brasileira sem roubo. E se em um determinado setor não houver mais roubo haverá uma grande confusão porque a sociedade está organizada em função desses acontecimentos.
Meta-regra é quando o administrador toma as regras com distância de alguém que não está jogando o jogo diretamente, ele está pensando como entrar nesse jogo de maneira a beneficiar ele próprio e sua empresa. Mas existem as empresas concorrentes porque estamos falando do mercado, e mercado significa concorrência e se tem concorrência existem certas regras que nem sempre são respeitadas (espionagem industrial da McLaren na Ferrari, por exemplo). Concorrência não significa o elogio da diversidade, significa que eu vou me aliar àqueles que são aliáveis e vou montar um monopólio.
O problema que está detectando todos os autores lidos em sala de aula (pelo 1º ano) é que a sociedade contemporânea tende a naturalizar as nossas relações, do nosso tempo. Nós costumamos projetar para o passado ou para um outro povo porque somos incapazes de enxergar como eles são diferentes de nós. Uma das maneiras de se naturalizar é transformar tudo em gestão. Outra é a banalização. As pessoas entendem muito mais quantidade do que qualidade.
Naturalizar significa apagar a história. Foi sempre assim e será sempre assim. Os autores estudados pela classe vêm de certa forma enfrentar essa violência e dizer que não é uma violência, é natural, é um processo histórico. Esses autores falam em novos tempos, tempos modernos. E quando eles pensam nisso, é um pouco do que se vê em livros de história.
Thomas Hobbes observou em 1600 os ingleses e notou que alguma coisa estava em mudança: o indivíduo que nascia nos tempos modernos era diferente do indivíduo que nascia na idade média ou na Grécia ou em Roma. Ele tinha o desejo como característica e queria cada vez mais.


O professor Carlos Minchillo abordou com o grupo o tema da violência originada pelo holocausto que ainda é mantida e também comentou a forma como eram tratados os prisioneiros nos campos nazistas. Também questionou o fato de tomarmos cuidado ao fazer uma comparação com um campo de concentração e a nossa sociedade no século XXI.
Carlos Cortez Minchillo, 43 anos, é professor da Facamp, bacharel em Letras (francês e português) pela USP, mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp.


A violência parece fazer parte da história da humanidade. Cada época, de acordo com os meios disponíveis e também em função de questões específicas, testemunha manifestações diferentes de violência. Manifestações distintas em suas causas, em seus alvos, em suas armas, mas que respondem a um impulso que parece ser atemporal, que se aninha em qualquer cultura e que pode implodir qualquer esquema de aparente civilidade. Nesse sentido, sim, a violência do holocausto se mantém hoje, seja vitimando ainda os judeus, os homossexuais, os opositores de todas as épocas e de todas as sociedades, seja escolhendo como alvo outros atores sociais. A agressividade contra minorias, contra indivíduos ou grupos divergentes, o ódio religioso e a revanche de natureza política, econômica ou social alimentam hoje uma violência que também explica em parte o holocausto. Pode não haver fornos crematórios, mas há índios que são queimados em pontos de ônibus.
Alguns procedimentos dos campos de concentração nazistas - e que foram e continuam sendo aplicados em muitas outras situações - são evidentemente violentos do ponto de vista físico, psicológico e moral. Para começar, a perda sem apelo do poder de decisão, do livre arbítrio: ser levado à força, ser apartado dos pertences, dos vestígios do passado (a casa, as fotos, os documentos, as cartas, os objetos queridos, para não falar dos entes, amigos) sem poder contestar é de uma violência radical. Identificar-se como um número, ter o cabelo cortado, seu submetido a um trabalho exaustivo e compulsório, receber alimentação insuficiente e arriscar-se no próximo minuto a perder a vida, bem, tudo isso significa não reconhecer no outro traços de humanidade. Esse olhar desumanizante é pré-requisito para a violência radical que permite os genocídios porque basicamente diz à exaustão: "eles podem ser submetidos a tudo, pois não são dignos de qualquer respeito".
Quanto a viver em um campo de concentração no século XXI, é preciso tomar cuidado com as metáforas. O respeito à memória de um acontecimento como o holocausto da segunda guerra exige que as comparações fáceis sejam evitadas. Porque freqüentemente se comparam situações de dimensões desiguais. É evidente que há seres humanos hoje que vivem em condições tão ruins ou piores que as dos campos de concentração nazistas. Essas pessoas tampouco têm muito poder de decisão sobre suas vidas, suas iniciativas estão cerceadas por condições de fome, miséria, quando não são vítimas de opressão (religiosa, militar, estatal, civil). Mas ainda que haja muito preconceito e hostilidade, ainda que minorias sofram discriminação, mesmo vivendo no meio de um conflito armado (seja na faixa de Gaza, no Congo ou em algumas favelas brasileiras), apesar de tudo isso, boa parte da humanidade não vive nas condições de um campo de concentração. Existem instituições, grupos, governos que fiscalizam os crimes contra a humanidade e se é verdade que essa fiscalização e assistência podem falhar, podem se corromper, também é verdade que no conjunto impedem que a violência se dissemine impunemente por tempo indeterminado.

Resenha de “É isto um homem?”

Sem heróis nem vilões
O livro “É isto um homem?”, de Primo Levi, relata a experiência do autor no campo de concentração nazista de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. Seu relato, ao contrário de muitos outros, não mostra o ódio e revolta ao qual o leitor está acostumado quando fala a respeito do horror dos campos.
O que marca o dia-a-dia daqueles condenados é a humilhação, a situação precária e desumana que os classifica não mais como seres humanos, e sim como animais maltrapilhos e desprezíveis que brigavam por uma concha de sopa e um pedaço de pão.
É por essa razão que, do ponto de vista de Primo Levi, não houve nem heróis, nem vilões naquele campo de moribundos. Os que gozavam de melhor tratamento eram os soldados alemães (ainda que também vivessem naquele horror), que ficavam com as melhores roupas, rações e alojamentos.
O destaque da obra está no não merecimento de um dos lados da guerra, ela é imparcial nesse aspecto, também não conta com bravura os feitos dos soldados, como visto em muitos filmes, já que para o autor não havia ali quem merecesse realce. Traz apenas o relato pessoal de quem não sabia o motivo de ser tão odiado.

Por Ricardo Yudi Gouvêa

Violência nas escolas

Trabalho realizado a partir de uma pauta desenvolvida na disciplina de Jornalismo Multimídia

A violência está cada vez mais sólida, se multiplicando em vários setores e atingindo diversas classes sociais. Muitos dos atos violentos são cometidos não só por adultos, mas também por adolescentes e crianças. No entanto, não podemos esquecer que a violência não remete somente a agressão física, mas também a agressão psicológica e verbal.
A violência não está só nas ruas, nas baladas da noite, nos estádios de futebol, ela está também nas escolas e cada vez mais se fortalecendo, o que faz com que a instituição não saiba quais medidas exatas tomar para amenizar o problema, ficando refém dos alunos que muitas vezes chegam a ameaçar professores, funcionários e membros da direção caso tomem algumas providências.
Marcelo Macul, 39, professor da escola municipal “EJA” (Educação de jovens e adultos), antigo supletivo, em Paulínia, SP, foi um de nossos entrevistados nesta semana no blogue Juventude & Violência. Macul trabalhou em 20 escolas, tanto públicas quanto municipais e particulares. Possui diploma de bacharel e licenciatura em Física pela FEB (Fundação Educacional de Barretos). Também possui especialização em Física Médica pela USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto (SP) e mestrado em Educação para a Ciência pela UNESP (Universidade Estadual de São Paulo) de Bauru (SP). Na entrevista o professor abordou as questões sobre a importância da escola na educação dos jovens, a influência da sociedade e a relação entre alunos e professores.
Nossa outra entrevistada foi Amélia Mariko Kubota, 29, professora de geografia, formada pela Unicamp e que trabalha desde agosto de 2004 na Escola Estadual Professor Carlos Francisco de Paula, localizada no bairro Cidade Jardim (região que concentra bastantes escolas), em Campinas, SP. Kubota já trabalhou como monitora em núcleos da prefeitura (de Campinas) que ficam na periferia da cidade, em comunidade carente com jovens.Os alunos que freqüentam a EE Professor Carlos Francisco de Paula são provenientes de bairros de classe media baixa e classe baixa, além de favelas. A professora chama atenção para a baixa intolerância dos alunos, o que gera muita discussão e agressão desnecessária.

Leia agora as entrevistas:
Blogue J&V- Você já sofreu alguma agressão física ou verbal de algum aluno? Qual foi a medida tomada por você e pela escola?
Marcelo - Agressão verbal eu sofro constantemente. É difícil hoje encontrar uma direção escolar que toma alguma medida punitiva, geralmente eu ignoro e se for algo insustentável, retiro aluno da sala de aula.
Os jovens que mais me ofendem são aqueles que duvidam da minha capacidade de educar; recentemente eu retive um aluno e ele disse que minha aula era “uma bosta” e não teria como retê-lo, como se a culpa do aprendizado dele fosse minha.
Eu o coloquei para fora da sala.

Blogue J&V - Você acredita que a educação em casa influencia na conduta do aluno? Por quê?
Marcelo - Com certeza, são dados que temos dentro da escola. Os piores problemas são causados por alunos oriundos de lares desfeitos ou que não possuem uma estrutura familiar definida.

Blogue J&V - Como é a relação entre os alunos com os professores, funcionários e diretores? Existe algum problema na direção que atrapalha o desenvolvimento escolar?
Marcelo - Entre professores e funcionários, e professores e alunos, a relação é ótima, entre professores e direção, a relação é péssima.
O corpo docente é muito competente unido e interessado no melhor aproveitamento do tempo que os alunos passam na escola (Educação de jovens e adultos). Pelo fato de trabalharmos com alunos adultos, eles reconhecem o esforço dos professores o que torna a relação entre eles muito agradável. O problema com a direção é que a mesma é despreparada no sentido pedagógico, possui vínculo político com a administração municipal (Prefeitura de Paulínia), portanto coloca suas ambições políticas acima do trabalho.

Blogue J&V - Que tipo de atitude você toma diante de um caso de agressão entre os alunos em sala de aula? Quais são as penalidades? Essas penalidades fazem com que o aluno mude de comportamento ou não?
Marcelo - Cada caso é um caso, às vezes dá para interferir fisicamente separando as pessoas, às vezes é preciso a intervenção de monitores e até mesmo da polícia. Isso geralmente quando os alunos são menores, com os maiores tenta se conversar. Existe uma punição branda pela direção, que é suspensão ou advertência verbal, dificilmente se chega à transferência compulsória - “expulsão”.

Blogue J&V – Você disse que trabalha com alunos adultos, como é esse trabalho? Eles interagem com os alunos mais novos?
Marcelo - A nossa experiência é muita boa nesse sentido por misturar jovens com alunos mais velhos, geralmente pais de família. Os mais jovens se adeqüam aos costumes dos mais velhos perdendo de certa forma a agressividade. Como professor eu tenho que assumir a postura de parceiro mais capaz, é uma definição vygotskiana, ou seja, estabelece relação de parceria com o aluno em que a aprendizagem se dá através de interação social; isso eleva a auto-estima do aluno e facilita o processo de aprendizagem em si, o aluno não se sente constrangido brincando com o professor, eu vejo esse relacionamento como um conhecimento prévio do aluno.

Blogue J&V - A violência vinda dos jovens tem influência externa?
Marcelo - Acho que a influência vem da educação vinda da família; a crise de valores da sociedade atual banaliza de forma geral a violência e essa banalização se reflete na escola. A sociedade hoje é violenta e essa violência chegou dentro da escola.

Blogue J&V - Em sua opinião existe uma saída para melhorar a conduta dos alunos agressivos que levam essa violência pra dentro da escola?
Marcelo – Em primeiro lugar é necessário valorizar a escola e o conhecimento fazendo com que os alunos percebam que a escola vai ajudá-los a ter uma qualidade de vida melhor, isso é provado estatisticamente; a cada ano de estudo você ganha 10 de vida. Resumindo: quanto mais você estuda, mais você diminui o risco de ser uma pessoa violenta.
A escola é a única ferramenta para se mudar esse comportamento, pressupondo que o jovem venha com valores alterados, que sua família não tenha cumprido com seu papel formativo, cabendo à instituição adequar esse indivíduo à sociedade e se não for à escola, ele jamais vai se adequar à sociedade.

Blogue J&V - A escola em que você trabalha cria projetos, palestras ou alguma medida que possa alterar a personalidade de alunos violentos? O que você acha disso?
Marcelo - Sim, a escola promove palestras sobre o tema (violência), palestras com a defesa civil. Também temos convênio com a secretaria de segurança, convênio com instituições de recuperação para dependentes químicos e alcoólatras. São projetos interessantes, pois conseguimos perceber mudanças de postura e melhoria nos alunos encaminhados para as intuições conveniadas. Esses dias eu mesmo encaminhei um aluno para o Bezerra de Menezes (casa de recuperação), que sofria de rejeição na família, as filhas disseram para ele que não o reconheciam como pai em função do alcoolismo, agendei a entrevista para ele na instituição e ele aceitou o tratamento até porque não adianta nada encaminhar sem a pessoa querer.

Blogue J&V - Você conhece algum professor ou funcionário que já foi agredido por algum aluno? O que aconteceu? E como esse caso foi resolvido?
Marcelo - Sim, certa vez uma aluna deu uma cadeirada na professora, e diante da atitude, a aluna foi transferida de escola. Ela era menor. Quando o aluno é maior e é denunciado no Boletim de Ocorrência, ele assume a responsabilidade. Pode haver um processo de condenação, mas depende da gravidade, na verdade o Boletim de Ocorrência apenas registra o acontecido.

Blogue J&V - Os alunos mais problemáticos têm acompanhamento dos pais junto à escola? Quando um aluno briga na escola e a direção convoca os pais, quais são as reações deles? Eles defendem os filhos e acham que o problema está no professor e na escola ou prometem tomar providências?
Marcelo - A participação dos pais está ligada à condição sócio-cultural, quanto maior esta for, maior será a participação. Geralmente os pais prometem tomar providências, mas são casos e casos, na maioria das vezes a conduta do aluno não muda. A frase comum entre os alunos é “não dá nada não”.

Blogue J&V- A escola disponibiliza psicólogos para conversar ou acompanhar os alunos problemáticos? Ou algum orientador para esses fins?
Marcelo – A escola possui uma psicóloga que trabalha com educação especial e atende alunos problemáticos, isso não resolve. Eu acho que a escola não é preparada para esses alunos e não adianta um acompanhamento psicológico se as condições deles não mudam.

Blogue J&V - Qual é sua posição de educador referente à juventude violenta nos atuais dias?
Marcelo - Professor mediador que procura valorizar o conhecimento. Se o aluno consegue agregar os valores ao conhecimento adquirido, ele automaticamente se desvincula da violência.

Blogue J&V - Como seria uma juventude menos violenta pra você?
Marcelo - A questão da violência se resume a valores: valores familiares, valores culturais, religiosos e o valor da própria vida. Hoje você tenta valorizar a vida do aluno, uma evolução como ser humano e tem uma sociedade que trabalha contra essa evolução deturpando os valores familiares e privilegiando outras habilidades que não estão relacionadas ao conhecimento, ao crescimento profissional. Posso dar como exemplo: adolescentes que querem ser pagodeiros, ou jogadores de futebol: são valores deturpados.


Blogue J&V – Você já sofreu alguma agressão física ou verbal de algum aluno? Qual foi a medida tomada por você?
Amélia - Agressão física não, e verbal algumas vezes, tanto que uma vez há dois anos eu precisei fazer um B. O (boletim de ocorrência) em uma delegacia, porque uma menina de 12 anos, com um histórico de indisciplina, se dirigiu a mim de uma forma que deu a entender que se tratava de uma ameaça. A diretora e alguns professores me orientaram a fazer um B.O. Foi o único em 3 anos. A realidade da nossa escola ainda é boa se comparada a outras que ouvimos falar.

Blogue J&V – Conhece algum professor ou funcionário que já foi agredido por algum aluno?
Amélia - Certa vez, uma funcionária da escola levou uma pedrada na cabeça e teve que ser levada para o hospital.

Blogue J&V – Como é o relacionamento entre os alunos com os professores e funcionários? E entre eles mesmos?
Amélia - Por mais que a imagem do professor esteja denegrida, no geral os alunos ainda respeitam os professores. Eles são intolerantes entre eles mesmos, por razoes mínimas costumam gerar intrigas, por causa de brincadeiras sem graça nós temos que intervir. Eles estão com uma intolerância muito baixa em relação ao outro. Acredito que seja uma falta de respeito, de um não respeitar o espaço do outro, tanto que a maioria das brigas em sala de aula não é contra o professor e sim entre eles. Já presenciei casos que assustam (um que machucou o outro com uma caneta, outro que bateu a cabeça do colega na parede). Existem aqueles que não respeitam os colegas, os professores e os funcionários. Esses alunos possuem tal comportamento por falta de formação em casa, trazem os problemas de casa e acabam repercutindo isso na escola. O aluno às vezes resolve enfrentar o professor e nós temos que tomar alguma atitude (tirar da sala e levar para a direção). Existem alguns que são muito difíceis de lidar, xingam, gritam. Os professores ficam muito expostos porque não sabem com que tipos de pessoas estão lidando. Eu não sei o que pode acontecer se algum aluno partir para cima de mim, e nós estamos sujeitos a isso. Mas isso depende muito do relacionamento do professor e dos alunos, ainda que existam exceções. A partir do momento que eu respeito o aluno e ele percebe isso, ele também vai me respeitar.
Outro dia à noite nos tivemos problemas entre dois alunos e a escola acabou tendo que chamar a policia: uma turma queria bater na outra e os professores tiveram que liberar os alunos em horários diferentes para evitar brigas, tudo isso por causa de um CD. Tudo eles querem resolver na agressão, às vezes até no revólver. Para esses, se a vida deles não tem valor, a vida do outro também não tem, por isso existem as ameaças de morte. Outros professores já fizeram BO.
As meninas também estão muito violentas, em alguns casos ate mais que os meninos. Elas brigam por causas banais, geralmente por causa de garotos. Houve um caso de duas meninas que brigaram e uma delas foi transferida de escola.

Blogue J&V – O que acontece nesses casos de transferência?
Amélia - A gente acaba transferindo o problema de lugar, eu acho que como o aluno acaba entrando em um ambiente novo, ele fica mais “na dele” no começo. Esses que são transferidos desde pequenos costumam ser muito intolerantes e criam muitos problemas, que serão carregados até a adolescência.

Blogue J&V – E você? Como é a sua relação com eles? Algum atrito?
Amélia - O meu relacionamento com os alunos é bom. Eu não tenho muitos problemas, o que mais acontece é devido à indisciplina. Os meus alunos de terceiro colegial (à noite) são mais tranqüilos que os de quinta a sétima série (à tarde). Se eles ultrapassam os limites, eu não vou mandá-los calar a boca, eu falo com jeito. O período da tarde é mais indisciplinado, alguns alunos não têm estrutura familiar. Eles são problema para vários professores. Os profissionais precisam saber lidar com os alunos. Se os alunos não vão com a cara do professor, eles pegam birra e azucrinam–o. Houve um caso de uma professora que teve os quatro pneus do carro furados, então ela nunca mais retornou. É claro que existem salas mais difíceis, não é tudo “às mil maravilhas”, mas na medida do possível, eu ainda consigo manter um relacionamento razoável com meus alunos. Eu sou enérgica, quando preciso dar bronca, eu dou, o que faz parte do cotidiano escolar.

Blogue J&V – Você falou a respeito do problema da estrutura familiar. O que acontece então na sua opinião?
Amélia - O que acontece, de acordo com a minha vivência, é que muitas crianças vêm de famílias desestruturadas, que colocam toda a responsabilidade de educação e de criação na escola. São pais que lavam as mãos, não tem mais nenhuma responsabilidade. Muitas famílias acham que crianças de 12/13 anos podem se virar sozinhos, e isso não é verdade, trata-se de um período em que o jovem está confuso, precisa de orientação e limites. Muitas mães ficaram grávidas muito cedo, com 14/15 anos, tiveram vários filhos com diferentes homens e não mora com nenhum deles. Muitos jovens foram criados pelos avós, uma vez que foram abandonados pelos pais. Eu também já tive casos de alunas que engravidaram cedo e acabaram abandonando os estudos. A escola é um lugar de educação formal, de conhecimento cientifico, mas toda a responsabilidade é jogada nas nossas costas, diretores, professores e funcionários acabam fazendo papel de psicóloga, babá e assistente social. Muito mudou desde a época que eu sai da escola. Houve uma época em que a disciplina era muito marcante, hoje já não é mais, liberou-se tanto que a coisa virou um caos. Nosso sistema é de progressão continuada no estado de São Paulo, não podemos reprovar o aluno, o que acaba tirando a moral da escola, a teoria é bonita, mas na pratica é complicado.

Blogue J&V – Que tipo de atitude você toma diante de um caso de agressão em sala de aula?
Amélia - Cada caso é um caso, já aconteceu de eu mesma intervir, geralmente eu chamo a inspetora ou algum funcionário que está fora da sala para levar os alunos para a direção. A diretora ou vice, conversa com os alunos e se necessário, chama os pais.

Blogue J&V – Esse tipo de penalidade faz com que o aluno mude de comportamento?
Amélia - Essas penalidades funcionam a partir do momento que você consegue sentar e conversar com os alunos e chamar a família, porque ela também tem responsabilidade de trabalhar a agressividade dos alunos em casa. A família precisa saber o que está acontecendo na escola. Há casos que não resolvem, às vezes a gente chama os pais 10/20 vezes e é a mesma coisa.

Blogue J&V – Como os pais se comportam mediante alguma advertência vinda da escola em relação ao seu filho?
Amélia - Alguns pais conhecem o filho que tem e confiam no nosso trabalho e no que a gente fala. É mais fácil conversar com esses pais, eles apóiam o nosso trabalho. Agora, existem aqueles pais que não acreditam na nossa palavra, que passam a mão na cabeça do filho, que acham que ele está sempre certo. É mais difícil lidar com eles, uma vez que duvidam do nosso trabalho. Eles acham que os profissionais da escola tem a obrigação de cuidar de seus filhos em todos os aspectos possíveis.

Blogue J&V – Você acredita que a educação em casa influencia na conduta do aluno?
Amélia - Dependendo da convivência que o aluno tem em casa, essa influência pode ser negativa. Se a estrutura familiar não fornece apoio, isso influencia no comportamento na escola. O excesso de violência na escola tem origem dentro de casa, eles podem ser vítima de violência em casa e reproduzir essa atitude na escola, já que sentem a necessidade de extravasar de alguma forma. O meio de convívio também pode ser difícil, alguns, por exemplo, moram em favelas.

Blogue J&V – A violência dos jovens tem influencia vinda de outros alunos da escola?
Amélia - Sim, eu percebo que eles têm um comportamento diferente quando estão sozinhos e em grupo. O grupo influencia muito e essa pode ser negativa ou positiva. Eu presenciei um caso de duas garotas, que quando juntas conseguiam extrair da outra o que era de pior, mas separadas elas eram tranqüilas.

Blogue J&V – Qual o papel da escola na educação do aluno?
Amélia - A escola tem que fornecer conhecimento cientifico e formar pessoas com valores, formar cidadãos conscientes do mundo lá fora, que possam atuar de forma positiva no mundo ou no lugar em que vivem. Os professores acabam ultrapassando o conhecimento cientifico, nós valorizamos também a cidadania, o protagonismo juvenil (que se trabalha muito hoje nas escolas publicas), a questão do respeito com o próximo. Devemos preparar as pessoas para que elas atuem de forma positiva para o mundo que ela vai enfrentar. Os jovens devem estar preparados para lidar com diversas situações, como, por exemplo, saber se portar em uma entrevista de emprego. Nós somos cobrados por essa preparação, além de todo o conteúdo que temos que passar durante o ano.

Blogue J&V – Existe uma saída para melhorar a conduta dos alunos agressivos?
Amélia - Existe, mas não é fácil, quando nos não conseguimos fazer com que o aluno perceba que a conduta dele está prejudicando ele mesmo, nós temos que transferi-lo para outro lugar depois de tentarmos todas as possibilidades. Dentro da escola pública nos não temos estrutura para fazer um trabalho completo; falta uma psicóloga e um apoio da família, assim nós conseguiríamos trabalhar melhor. O adolescente no fundo quer alguém que cuide dele, se importe, de limites, por mais que ele seja rebelde. Assim ele se sente protegido e importante. A partir do momento que ninguém se importa com ele, ele não cria expectativa nenhuma. A gente chega a fazer papel de mãe, de conselheira (quando damos abertura). Eu acho legal ter esse contato com os alunos, de compartilhar. Dessa maneira criamos um relacionamento positivo e geramos confiança. Muitos não têm com quem conversar em casa, sentem carência de compartilhar seus assuntos.

Blogue J&V – A escola em que você trabalha, cria projetos, palestras ou alguma medida de orientação aos alunos?
Amélia - A escola trabalha com vários projetos, um deles é o do protagonismo juvenil, que está dando certo, alguns alunos são dedicados e ajudam outros, organizam campeonatos e isso diminui, por exemplo, um pouco a violência na hora do intervalo e criou uma colaboração entre eles. Existem projetos como bairro-escola, em que a gente tenta inserir os alunos da escola no bairro, para que eles cuidem melhor da escola, já que existe muita pichação e depredação. Tivemos uma noite com uma banda hip-hop, que trouxe uma mensagem para os adolescentes, o resultado foi positivo. Também tentamos chamar pessoas para dar palestras, pessoas que tratem de assuntos que interessem aos alunos, todos voluntários porque nossa escola não tem verba para isso.

Blogue J&V Qual é a sua posição de educador referente à juventude violenta hoje?
Amélia - Se eu conseguir fazer com que um aluno meu tenha um futuro melhor, eu ficarei feliz. Meu papel como educadora é influenciar meus alunos para que eles consigam um futuro bom. Infelizmente existem os alunos sem nenhuma expectativa, que roubam e usam drogas, por exemplo, a expectativa de vida deles é curta. Mais do que ensinar geografia, eu ficarei muito feliz se tiver influenciado um aluno de maneira positiva, isso dá uma satisfação muito grande. Outro dia eu encontrei um ex-aluno (que meu deu muito trabalho) trabalhando como repositor de produtos no supermercado, eu quase não o reconheci porque ele estava com uma boa aparência, aquilo me deu muita satisfação, fiquei feliz porque agora ele esta criando juízo, que ele não tinha quando era meu aluno. O professor não pode esperar resultado imediato, o resultado sempre vai ser daqui a algum tempo e este pode ser positivo ou negativo. Infelizmente alguns alunos da escola já morreram em decorrência de assaltos e tráfico de drogas. É muito gratificante para o professor quando o aluno trabalha, vai para uma faculdade e constitui uma família. É gostoso quando os alunos mantêm contato mesmo depois de sair da escola.

Saiba mais:
Entrevista com Luiz Carlos Prates:
http://br.youtube.com/watch?v=nD0VIOKxJq0&mode=related&search=War
Violência psicológica:
http://br.youtube.com/watch?v=QZbZtI5AzYQ&mode=related&search=War
Casos de violência não só acontecem no Brasil, mas sim em diversas partes do mundo.
Na quarta-feira (10/10/2007), ocorreu em Cleveland, nos EUA, um crime cometido por um estudante de 14 anos. Ele deixou cinco pessoas feridas e em seguida suicidou-se.
Site: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL147977-5602,00-ESTUDANTE+DE+ANOS+ATIRA+CONTRA+PROFESSORES+NOS+EUA.html
- Outros crimes em escolas americanas são relembrados na mesma página:
o Massacre de Columbine;
o Montreal;
o Colorado;
o Wisconsin e Pensilvânia.

A violência entre os jovens e suas causas

Pauta especial elaborada na disciplina de Jornalismo Multimídia

Entrevista: psicóloga Margareth Brigante
Quando se fala em violência entre os jovens, logo se pensa quais são os fatores que levam a esse problema. O que os pais e a sociedade pode fazer para intervir em situações de agressões? Foi pensando nessas questões que a equipe do Blogue Juventude e Violência foi até o consultório da psicóloga Margareth Brigante, 48, para que ela analisasse alguns casos que tiveram presença marcante na mídia e outros que julgou importante.
Brigante se formou na Universidade São Marcos (SP), em 1983 e já trabalhou na Psiquiatria no Hospital das Clinicas da Unicamp, na creche da Unicamp e atualmente trabalha em seu próprio consultório em Barão Geraldo, Campinas, SP.
Na entrevista, a psicóloga aborda o psiquismo fetal e os diversos motivos que levam o jovem a cometer um ato violento.

Leia a entrevista na integra:
Blogue J&V - O caso de Suzane Von Richthofen é um caso polêmico. Em sua opinião, o que levou essa jovem a matar os próprios pais, sabendo que ela era uma jovem de classe média alta e foi criada e educada da melhor forma possível comparada a outros jovens?
Margareth - Essa colocação me faz pensar no conceito de educação. O que de fato é educar um filho? Nós não podemos perder de vista as necessidades de qualquer criança, seja uma criança de uma família de nível socioeconômico baixo, seja uma criança como a Suzane, que teve provavelmente as melhores escolas, boas roupas, enfim outras oportunidades. Em termos de educação, a necessidade de qualquer criança é a de que esses pais sejam uma referência positiva, o que então envolve a possibilidade de se fazer um vínculo verdadeiro com essa criança. Mas será que o fato de as pessoas morarem debaixo do mesmo teto é garantia de que elas tenham um vínculo afetivo? Acho que não, você pode morar com algumas pessoas e não sentir que você tem intimidade verdadeira com elas. Por que será que algumas pessoas não conseguem fazer vínculos verdadeiros? Podem ser inúmeros motivos. No caso de Suzane ela pode ter se sentido rejeitada, essa rejeição pode ter sido intra-útero, ou seja, durante a gestação. Existem pesquisas científicas a respeito de psiquismo fetal, o quanto que um feto pode absorver essa rejeição por parte da mãe. Não estou falando que os pais são culpados, são circunstâncias muitas vezes em que os pais não estão preparados para educar filhos, não conseguem se doar adequadamente, então se cria uma série de lacunas e as necessidades intrínsecas de qualquer criança ficam sem respostas. Podem tomar lugar os sentimentos que seriam contrários a um vínculo afetivo. Seriam vínculos negativos: agressividade, hostilidade, raiva, sentimentos com muita intensidade numa forma de defesa; “porque que essa pessoa não me aceita?”. “Porque que eu não me sinto parte integrante dessa família?”. Os pais da Suzane eram pessoas de estudo universitário, trabalhavam bastante. Não se sabe exatamente o que de fato causou este distanciamento afetivo, mas com certeza a formação da identidade de uma criança precisa ter como raiz na sua formação, a referência dos seus pais, e isso só pode acontecer se houver uma relação de verdade com esses pais. A agressividade é latente em qualquer ser humano; agressividade é diferente de violência, por exemplo: duas crianças pequenas estão brincando e uma rouba o brinquedo da outra, com muita facilidade, aquela criança pode morder a outra. Dentro do universo infantil isso é normal, morder, puxar o cabelo, derrubar, gritar. São manifestações dessa agressividade, dessa indignação porque ela se sentiu contrariada. Então naquele momento em que ela perdeu o brinquedo, ela se sentiu muito frustrada e se os adultos ao redor não ajudam essa criança a lidar bem com esse momento de frustração, aquilo pode se cristalizar dentro dela. Ela começa então a acreditar que ela é ruim. Eu já tive crianças no consultório com temperamento muito intenso, muito forte, com muitos repentes de agressividade, que eram rotuladas de crianças ruins, de crianças com mau caráter. Os próprios pais colocavam isso: “eu pus no mundo um monstrinho”, eu já ouvi isso de pais. Então o que será que um rótulo não faz com uma pessoa, seja ela qual idade tenha? Só faz estrago, quando você rotula alguém, você não enxerga a pessoa. Tendo em vista isso, eu acredito que a violência seria todo esse processo de crescimento sem ter um norte, sem ter a ajuda dos pais, alguém que contenha esse crescimento, que possa dar nomes a isso, chegar e falar: “Olha você ficou com muita raiva, você está muito bravo. Mas será que é a melhor forma de resolver isso, de você ter seu brinquedo de volta?” Então na verdade quando você age assim com uma criança, você está dando para ela uma referência de como ela pode agir, ou seja, ela não precisa apenas ser agressiva para resolver o problema.
Se uma criança não aprende desde pequena a lidar com a sua própria frustração, isso só tende a piorar, porque do ponto de vista social, ela vai ser estimulada a acreditar que tudo ela precisava para ontem. Ela não aprendeu que ela precisa trilhar um caminho para conseguir alguma coisa que de fato ela queira muito. Então a violência acaba sendo uma manifestação deste imediatismo, dessa busca de prazer imediato somado a banalização da vida humana porque a formação de vínculos está muito precária na nossa sociedade.

Blogue J&V - Você acredita que casos de violência estejam relacionados a distúrbios psicológicos e de caráter? Por quê?
Margareth - Quando eu trabalhei na Psiquiatria Infantil aqui no Hospital das Clínicas, nós tínhamos uns protocolos em que, depois de fazer a anamnese (uma entrevista feita pelo médico ao paciente que busca relembrar todos os fatos que se relacionam com a doença e à pessoa doente) com a criança e com os pais, de fazer um processo de avaliação para fechar um psicodiagnóstico, nós tínhamos lá ‘n’ quesitos: distúrbio reativo que era o mais leve, distúrbio do comportamento, distúrbio da personalidade, distúrbio do caráter, distúrbio de conduta, do ponto de vista do agravamento daquele quadro. Então nós tínhamos várias opções, por quê? Por que existe uma necessidade também, dos profissionais e da sociedade de uma maneira geral de definir o que está acontecendo com aquela pessoa que está fora dos padrões esperados de comportamento. Então isso que você esta me colocando nada mais é do que uma tentativa de nomear alguma coisa que está fora deste normal. Eu não gosto, particularmente pela minha experiência profissional, de definir diagnósticos dessa forma, de dizer: “Olha essa pessoa tem um distúrbio de conduta, de caráter, de personalidade”, ela tem um distúrbio sim. A palavra distúrbio já diz que há algo que está fora do centro do prumo, está fora de controle, do autocontrole dela. O prefixo “dis” já vem na contramão, é do avesso. Eu diria que alguns casos que não são tratados acabam se transformando em pessoas com distúrbio sim.
Blogue J&V - No seu ponto de vista, uma pessoa pode nascer com o caráter predisposto à agressividade?
Margareth - Predisposto? Eu acho que essa palavra é um pouco perigosa. Como eu acredito na questão do psiquismo fetal, eu tive experiências muito interessantes ao acompanhar gestantes, acompanhar histórias de gestação da criança e depois a criança, ao vivo e a cores durante um tempo. Eu me surpreendi muito com algumas observações que eu tive o prazer de ter na minha vida profissional. Então eu não sei se é predisposto ou se é reativo, porque se um bebê que está lá dentro da barriga da mãe, que deveria ser chamada de hotel cinco estrelas, porque lá ela tem todo o conforto e tudo aquilo que ela precisa. Mas mediante uma situação de caos familiar, vamos imaginar que os pais sejam pessoas descontroladas emocionalmente, ou um dos cônjuges, por exemplo, é alcoólatra, imagine essa cena, com há muito barulho, muita gritaria, pode haver algum nível de agressão física, então você imagina que a descarga de adrenalina que essa mãe vai despender na corrente sanguínea vai ser grande mediante a possibilidade de ela apanhar. Principalmente porque, qualquer mulher quando está grávida, tem um instinto muito mais aguçado de sobrevivência em função do bebê, ela muda o comportamento. Então essa carga de adrenalina na corrente sanguínea é como um veneno para o feto. Não é para ele receber aquilo, então já é um estímulo muito grande que vai acontecer neste feto, ele pode ficar elétrico. A gente sabe por estudos que o bebê dorme períodos até longos dentro da barriga da mãe, mas mediante essas descargas de adrenalina isso pode não acontecer. Eu acompanhei uma criança cuja mãe no oitavo mês de gestação recebeu uma ameaça de faca do marido, e ela se encolheu na cozinha, ela narrou isso com todos os detalhes e ficou com muito medo, mesmo porque o marido estava alcoolizado e gritava muito. Estudos dizem também que no oitavo mês de gestação o bebê já escuta sons externos e principalmente a voz da mãe e do pai ele já reconhece. Depois que essa criança nasceu, a mãe já estava separada desse marido, ele fazia visitas juridicamente acompanhadas, foi se tratando e quando essa criança estava com cerca de dois anos de idade, esse homem então começou a se apresentar para essa criança. Esse menino tinha um verdadeiro pânico quando ele escutava a voz do pai. Houve um registro real da voz desse homem com aquele momento de pânico da mãe na barriga com a descarga da adrenalina. Todas essas associações que ele faz ficaram registradas, a memória do feto é diferente do nosso processo de memória, mas ela existe. Então nós tivemos que fazer o trabalho de reaproximação desse pai com essa criança porque de fato ele se regenerou do ponto de vista do alcoolismo. Eu estava sempre junto nas sessões de aproximação e o menino se escondia atrás de mim ou atrás da mãe. Ele abraçava a perna da gente e ficava espiando o pai, mas ele tremia, era uma coisa forte. Então eu trocaria a palavra “predisposto”. Eu acho que existem algumas situações que são vividas com muita intensidade que de fato podem interferir na vida dessa criança.
Blogue J&V - E a sociedade também pode interferir na vida dessa criança?
Margareth - Sim. Eu vejo cada indivíduo da seguinte forma: imagine três arcos com intersecção. Então você coloca a criança, a família e o ambiente. Cada um de nós já nasce com uma bagagem própria, que ninguém rouba de nós, teremos o nosso temperamento, nossos gostos, o nosso jeito de ser. E eu que já trabalhei em berçário 17 anos, falo isso de camarote porque é uma belezinha ver aquela turminha de um ano e cada um com a sua característica, com o seu jeito de ser. E a criança já mostra isso, suas tendências, até de gosto em relação à comida: aqueles que preferem o doce, aqueles que preferem o salgado. Aquela criança que já e mais tolerante, aquela que tem a tolerância baixíssima, aquela que é mais carinhosa, a que já é mais, não diria egoísta, porque a criança ainda nessa idade não é um ser social ela não pode ser egoísta, ela é egocêntrica. Então a gente já vê tendências na vida dessa criança, tem a criança com a sua bagagem, a família como a sua primeira escola (escola da vida eu me refiro, porque se a criança dentro da família puder aprender a se relacionar, aprender a se posicionar e a dizer “olha eu não concordo” e isso ser visto como uma coisa negativa, ela vai estar mais preparada para a sociedade). Agora, quando ela cresce, o social vai tendo um peso muito maior na vida dela em termos de significado, mas a raiz dela é a família, o primeiro núcleo social importante da vida de uma criança é a sua família. A sociedade vai interferir, mas dependendo dessa estrutura ela vai interferir mais ou menos de maneira positiva ou negativa. Ela vai ter referências para fazer o contraponto? Essa é uma pergunta que depende do crescimento dela, das oportunidades que ela vai ter. Então é relativa essa interferência, mas é real.
Blogue J&V - O que se passa na cabeça de um pai quando ele bate em um filho? O jeito que ele trata o filho influência no caráter da criança?
Margareth - Pela minha experiência, esse pai provavelmente foi criado dessa forma. Se ele passou por isso, ele apóia a referência de educação e de autoridade que ele internalizou para ser respeitado, para exercer a autoridade, ele precisa disso porque foi isso que o pai dele fez com ele, ou que o avô fez com ele. O núcleo aonde ele cresceu tinha isso como valor. Entretanto, a referência de autoridade desse pai está extremamente equivocada, e é um fato psíquico que quanto mais rígida a pessoa é por fora, ou seja, nas suas ações, mais frágil ela é por dentro, então essa rigidez na verdade é uma tentativa de não perder o controle. Diante da rebeldia de um filho, a necessidade que esse pai pode ter de controlar aquela situação, de não perder o rumo daquela criança, ele vai buscar dentro dele o saber que ele tem. E a capacidade de fazer diferente também é um recurso pessoal porque senão eu estaria dizendo que todas as pessoas que apanharam dos pais vão bater nos filhos. Se uma pessoa não tem um recurso próprio para trabalhar isso e reconhecer que isso não é o melhor, ela vai repetir o modelo sim.
Blogue J&V – Que tipo de transtorno possuem aqueles jovens de classe média alta do Rio de Janeiro que espancaram uma empregada doméstica?
Margareth - Eu diria que é uma sociopatia. O sociopata é diferente do psicopata. A sociopatia tem algumas características que envolvem justamente as diferenças de classes sociais, ou seja, o uso de poder que envolve classes sociais. Porque a empregada doméstica? Talvez exista aí um viés na personalidade destes jovens de se considerarem ou de precisarem se considerar acima da vida em termos de poder, quer dizer, “Eu sou de um nível sócio-econômico maior e a sociedade não vai me penalizar porque o meu pai é X, Y ou Z”, isso acontece, a gente sabe disso, “Eu estou com raiva do mundo e preciso descarregar em alguém”. Volta de novo a frustração, vai saber por que eles estavam com raiva. Ou simplesmente usaram alguma droga ou álcool e a gente sabe que isso pode baixar um pouco as defesas de norma de conduta e esse lado mais obscuro da personalidade acaba aparecendo com mais facilidade. Não que toda pessoa que bebe faz isso. Eu acredito que seja um viés de sociopatia.
Blogue J&V - No mundo contemporâneo a violência pode estar ligada à tecnologia e valores materiais?
Margareth - O ser humano possui na sua natureza características que não são louváveis, todo ser humano sente inveja, pode mentir, pode ser maledicente, e a partir destas questões muito primitivas da natureza humana ele pode crescer nesses desvios. Relacionar a violência com o nosso mundo contemporâneo é um pouco complicado. Eu não faria essa relação causal, porque se a gente olhar para a história da humanidade, não existia tecnologia, mas sempre existiu violência. Se a gente voltar na idade dos romanos, que colocavam homens como comida para os leões, isso é a banalização da vida humana. Existe algo dentro do humano que é muito pequeno, que é muito ruim. E isso precisa ser trabalhado, percebido e reconhecido e precisa haver o desejo de mudar, e eu pontuo novamente os recursos de cada um (de você reconhecer coisas ruins dentro de você e falar ”Não, eu não quero isso!”). Nós fazemos escolhas todos os dias. Então eu não faço essa relação causal entre violência e tecnologia.
Blogue J&V - No caso do sul-coreano que matou colegas no massacre em universidade na Virgínia: o que o levou a fazer tal atrocidade?
Margareth - Comportamento autodestrutivo do ser humano, quando o ser humano antecede a destruição do outro, porque se a vida dele não tem valor, então a do outro também não tem, é um jogo de espelho. Eu acredito que essas pessoas passam por um processo em que elas não existem psiquicamente falando. Existe uma auto-estima nula, uma autoconfiança também nula e dentro dessa nulidade de existência o outro também não precisa existir. E essas pessoas ficam muito sujeitas a agirem por instinto. É uma situação muito primitiva.
Blogue J&V - O que você acha de jovens que vendem o corpo? E o adulto que abusa desse corpo?
Margareth - A dor emocional que estes jovens experimentam é muito grande. Infelizmente eu posso dizer que 70% dos jovens que vendem o seu corpo precocemente passam por abuso sexual dentro dos lares. Isso foi um dado que me surpreendeu quando eu tive um contato com essa população, com essa realidade. O que representa para uma criança de 10, 11 ou 12 anos quando ela começar a ser molestada pelo seu tio, ou padrasto ou irmão mais velho dentro de casa? Ela não tem voz para reagir. Normalmente essas crianças são ameaçadas. São pessoas sem voz, que não existem psiquicamente, só existem enquanto corpo. É uma destruição da identidade da vida emocional, de vínculos. É uma dor psíquica muito intensa que esse jovem experimenta.
Existem estudos que mostram que as pessoas que abusam de menores são os abusados, é uma bola de neve. É uma incapacidade de transformar aquilo que você viveu. Eu acompanhei durante um tempo, profissionalmente, uma mulher que era de Goiás, que experimentou essa vida lá quando jovem e veio para o estado de São Paulo na tentativa de fugir daquela realidade porque ela acreditava que aquilo tinha a ver com a pobreza do lugar onde vivia. Quando ela chegou aqui, ela também encontrou um caos, passou fome, não conseguiu emprego e acabou continuando nesse espaço de vender o corpo. Só que ela tinha um desejo muito grande de sair daquilo. Todo o dinheiro que ela conseguiu, ela usou para estudar. Hoje ela é uma docente da Unicamp. Qual o diferencial? Era o desejo e ela tinha recursos próprios para superar aquela dor e isso é individual. Cada um de nós é único.
Blogue J&V - dos casos que você já citou você poderia ou gostaria de citar algum caso de algum paciente?
Margareth - Eu atendo uma mulher, atualmente por volta dos seus 42 anos, e eu diria que a violência que ela sofreu na infância foi a indiferença. Eu fiz questão de colocar este caso porque nem sempre a violência está relacionada com agressão física. Hoje ela tem uma dificuldade muito grande de lidar com os filhos porque ela sofreu grande indiferença por parte da mãe. Depois ela veio saber da história: a mãe não a queria, foi uma gravidez indesejada, a mãe estava buscando a separação desse pai e foi uma relação sexual forçada. Essa mulher que se sentiu ultrajada com tudo isso, não conseguia ser mãe. E ela cresceu, casou e tem dois filhos homens. O tempo inteiro ela está buscando dentro dela fazer diferente, mas ela veio buscar ajuda porque a rigidez com que ela sempre tratou os filhos e o marido era decorrente dessa falta de controle e falta de crédito em si mesma. Eu chamo isso de violência emocional e psíquica muito grande.
Blogue J&V - Qual a influência dos jogos eletrônicos violentos na conduta e na agressividade do jovem?
Margareth - Influência negativa. Porque incentiva a nossa natureza negativa. Além da questão da agressividade, está a competição, a rivalidade e a hostilidade. A nossa sociedade é muito competitiva, as pessoas se rivalizam por tudo e por nada. Eu vejo que não agrega valor. Proibir os filhos de jogarem esses jogos é ser cego, mas é bom poder proporcionar outros interesses para que a pessoa não fique focada.
Blogue J&V - No caso dos jovens que arrastaram o garoto João Hélio, o que os levou a cometer tal ato com uma criança?
Margareth - Os garotos estavam em fuga e seu comportamento foi o de não expor que eles estavam fazendo algo de errado, seu instinto foi o de sobrevivência; fugir é uma coisa primitiva. São pessoas que não tem a referência de que a vida deles tem valor, e por isso para eles, a vida de mais ninguém tem valor. Era mais importante que eles conseguissem fugir. O objetivo deles naquele momento era o roubo e a fuga. Fazer aquele assalto e conseguir fugir ia dar um prazer imediato a eles. Segundo artigos escritos, esses bandidos costumam contar seus feitos com muito prazer, como se aquilo merecesse mesmo aplausos. Os valores dessa pessoa são muito diferentes dos nossos do ponto de vista de formação de vínculos. A história de vida deles teve buracos.
Blogue J&V - Em sua opinião, o que é possível fazer para alterar o quadro de violência feito e sofrido pelo jovem?
Margareth - É preciso humanidade. Quando eu falo em humanidade, eu penso em condições humanas supridas. O ser humano não tem condições de se sentir humano se ele não se sentir valorizado, isso é condição sine qua non. Ele é um ser que precisa viver em família, está tem que ter condições de se manter estruturada, e para isso, ele precisa estar dentro de uma engrenagem chamada sociedade. Essas engrenagens estão quebradas, as pessoas se casam, mas não conseguem constituir uma família, o numero de separações é muito grande. O ser humano precisa viver junto de alguém, ele tem sonho, ele quer se relacionar, ele quer viver em família, mas essas engrenagens estão quebradas. Por exemplo, quando um casal esta lutando para não se separar, mas ambos estão desempregados, a família entra no caos por causa de privações e os filhos em contrapartida estão indo juntos nesse processo. A palavra humanidade me remete a pensar em questões de dentro para fora e de fora para dentro, por que o ser humano precisa ter condições para se sentir humano, para se reconhecer como um humano.

Fichamento do texto: A Revolução de 1930 e seu significado político

Fichamento de texto elaborado a partir das discussões e leitura do texto desenvolvidas na disciplina de História do Brasil


Tema: Discute-se se a revolução de 1930 deve ser considerada como um marco histórico do país, já que ela ganhou uma dimensão que se transfere ao acontecimento, que não lhe pertence, mas sim ao conjunto de fenômenos que ele passa a simbolizar enquanto marco de periodização. Devem-se fazer algumas observações sobre o significado político da Revolução de 30, considerando-se os interesses nela envolvidos e as mudanças políticas operadas no país. É preciso observar o quadro econômico e social.

Problematica1: Quanto ao caráter político da Revolução, sobre a natureza da dimensão política (conflito ao nível de Estado).

Problemática 2: Sobre o aspecto social, a reorganização dos setores.

Problemática 3: Quanto ao aspecto econômico (expansão das atividades industriais), não se pode em 30 falar sobre capitalismo industrial.

Argumento: A Revolução de 30 só se define e se “consuma” politicamente através do Estado Novo, o que abre espaço para questionar o caráter “liberal” ou “democrático” atribuído a ela enquanto processo. O conflito político-ideologico explicitado pela revolução tem fraca relação com a expansão industrial então em curso na sociedade. Costuma-se interpretar na revolução um conflito de classes (ou de interesses econômicos) que oporia camadas urbanas e industriais às classes dominantes agrárias e uma ruptura da dimensão oligárquica.

Hipótese 1: A solidez da dominação oligárquica local simultaneamente exigia e facilitava que as mudanças fossem promovidas “de cima para baixo”, condição indispensável, pois qualquer mudança deveria ser contida nos limites da manutenção da estrutura de propriedade da terra. Tais limites não eram postos em risco, nem contestados em 30 por nenhuma força social com capacidade política para fazê-lo, e também não eram contestados pelos interesses vinculados à industrialização. A manutenção da confederação oligárquica dependia politicamente de duas condições: a primeira da aceitação, por parte das oligarquias estaduais, da estratificação política regional, por meio da qual se conferia a certos estados o direito de elegerem rotativamente o presidente da República, em troca do respeito à “soberania” dos demais; a segunda, da capacidade do sistema de incorporar ao processo político, as novas elites urbanas e de atender aos reclamos de uma burocracia militar que começava a reivindicar o monopólio dos meios de violência. É exatamente a incapacidade de fazer em face dessas duas áreas de conflito que põe em cheque o sistema político de 30.

Desenvolvimento 1: Com relação ao resultado das eleições de 30, a escolha se deveria fazer entre a adesão ao vencedor ou ( o recurso) a revolução. As rebeliões tenentistas, por sua vez, de alguma forma exprimiam a consciência das camadas medias quanto à inutilidade do voto urbano como instrumento de sua inserção no sistema político oligárquico, dado o peso, do voto rural. A convergência dessas duas ordens de contestações não deve fazer esquecer, no entanto, que é o conflito político que se manifesta ao nível das oligarquias, e não a contestação tenentista e urbana. O temor manifestado pelos chefes civis de 30 face à ação posteriormente desenvolvida pelos tenentes, não se deve a qualquer ameaça destes ás estruturas de dominação, contra as quais eles nunca se voltaram, porque jamais contestaram a estrutura da propriedade da terra. Tal temor se relaciona à frustrada tentativa dos tenentes de manterem algum tipo de mobilização política. O que esta em jogo em 30 não é a dominação oligárquica, mas a confederação oligárquica, através da crise de uma dada forma de Estado que era sua expressão política em plano nacional. O que se contesta, é a oligarquia enquanto elite dirigente e não enquanto classe dominante. As conquistas democráticas da Revolução de 30 são delimitadas, no plano de seu significado, pela manutenção da estrutura fundiária no campo e pela regimentação exercida sobre a representação das classes da cidade, e são delimitadas no tempo, por três anos, até a Ditadura de Vargas. É fundamental citar o processo de inclusão de novos atores à cena política, que não se fará propriamente ao sistema político, mas ao novo aparelho do Estado que emerge da Revolução.

Hipótese 2: Uma interpretação que dificulta o entendimento dos processos dos anos 20 e 30 no Brasil é a de que a oligarquia agrária era constituída por camadas sociais mais ou menos homogêneas, economicamente retrógradas e uniformemente identificadas a um mesmo estilo de dominação. Uma segunda interpretação é a idéia de uma dependência necessária entre os processos de mudança social no plano da estrutura agrária, no da urbanização e no da industrialização.

Desenvolvimento 2: No que se refere aos estereótipos sobre a oligarquia agrária, um exemplo é o fazendeiro de café, que foi capaz de formar e recrutar mão-de-obra assalariada, de construir estradas de ferro, de organizar a comercialização do café e de estabelecer relações políticas necessárias ao êxito de sua empresa e à garantia de seu esquema de dominação. Se ao nível de produção os fazendeiros de café, enquanto burguesia fez prova de sua capacidade de introduzir “novas combinações”, também em plano político revelaram, enquanto oligarquia, considerável capacidade de inovação. Quanto aos setores urbanos, tinham eles interesses sociais, assim como horizontes políticos, compatíveis com os interesses e horizontes daqueles setores modernizantes da oligarquia que vão, em 30, transformar seu descontentamento em praticas “revolucionárias”. Quanto aos setores propriamente industriais, não há evidência de que constituísse em 30 um segmento dotado de capacidade política autônoma, que tivessem interesses conflitantes com o setor agrário. O que reivindicavam as novas elites urbanas, era a abertura do espaço necessário á representação de seus interesses no nível de sistema político, de modo que pudessem estruturar seu esquema de dominação nas cidades. A “conquista social” da Revolução de 30 de um lado promoveu a incorporação das massas urbanas à vida política, e de outro cumpriu a função de resolver o problema maior de como estruturar as bases da dominação nas cidades. Problema esse que, se aflora com a revolução e resolvido, de forma autoritária, por intermédio das praticas populistas desenvolvidas durante o Estado Novo.

Hipótese 3: A expansão e a diversificação das atividades industriais, desempenhavam papel importante na diluição de tensões sociais que porventura viessem a se formar. Cabe discutir a natureza da relação entre as transformações em plano econômico e o conflito ao nível do Estado, de que é palco a década de 1930.

Desenvolvimento 3: A desorganização do sistema capitalista mundial, em 1929, contribuiu para uma aceleração nos processos de industrialização na periferia, ao mesmo tempo que colocava as elites dirigentes desses paises face ao problema de encontrar soluções adaptativas para a crise. No Brasil, os efeitos favoráveis à industrialização mostravam-se pelas condições de rentabilidade que se abriam à produção voltada para o mercado interno que era amplo para permitir que o setor industrial aurisse na sua própria massa de lucros. O avanço da industrialização nas décadas de 20 e 30 não significava a constituição de um capitalismo industrial, que no Brasil só vai ocorrer a partir da década de 1950, graças à participação do Estado e de empresas estrangeiras no processo. Os revolucionários de 30, uma vez no poder, não programam qualquer estratégia voltada para fortalecer o processo de industrialização.

Conclusão: Adotar a Revolução de 30 como um marco de periodização tende a criar um erro de perspectiva que se expressa numa espécie de equívoco semântico na caracterização de acontecimentos que se elevam um pouco acima do habitual. Esse equívoco é reforçado pelo uso do termo “revolução” para caracterizar uma forma de negociação entre elites em processo de diferenciação, enquanto elites e não enquanto classes. O que aconteceu na verdade, foi o episódio de um processo, assim existe a tendência de supervalorizar traços que podem caracterizar o episódio, mas não o processo. Desse processo, fazem parte as ações que precedem e sucedem o episodio “revolucionário” de 30.

Resenha: Na Praia

Resenha feita a partir da leitura do livro Na Praia discutido na disciplina de Leituras de Ficção

Dizem que a “primeira vez” de muitas coisas costuma ser inesquecível. O primeiro beijo, a primeira nota alta na escola, a primeira bicicleta, a primeira vez que dirigiu sozinho, o primeiro “porre”. E também é claro, a primeira transa.
No caso dos jovens protagonistas do romance Na Praia, de Ian McEwan, a primeira noite com certeza foi bastante marcante. Edward e Florence estão casados e virgens e é a noite de núpcias de ambos. O cenário é um hotel na costa inglesa de Dorset, o ano 1962. Trata-se de uma época em que era tabu falar sobre sexo e intimidades do corpo. Ele tinha a aflição normal de um jovem inexperiente, e ela estava completamente desesperada, um simples beijo lhe causava náuseas.
Os dois se conheceram de maneira esquisita: em uma reunião pelo desarmamento nuclear. Ela era formada em música e vinha de uma família mais abastada e letrada. Ele vinha de uma família mais humilde, sua mãe tinha uma lesão cerebral e, apesar das dificuldades, ele havia cursado uma faculdade de História.
Seus gostos e seus gênios eram um tanto diferente. Em matéria de música, Florence não só adorava, como praticava música clássica; já Edward preferia blues ou rock’n roll. Ela fazia parte de um quarteto em que tocava violino e, quando seus amigos discutiam, ela era quem tinha a palavra final, era uma espécie de controle que mantinha. Ele, apesar de aparentemente ser um rapaz tranqüilo, guardava uma ira pessoal e a manifestava através do prazer pela briga.
Após muita espera, estão eles na cama. Ele ansioso e ela disfarçando o nervosismo, pois o sexo era algo totalmente repugnante para ela, era capaz de amar, mas não via o sexo como prova de amor. O que acontece em seguida é de total desastre. Não é para menos, uma vez que além de inexperiente, tudo o que ela sabia sobre sexo se restringia ao manual das noivas. O ato não é consumado e ela tenta limpar aquele fluido viscoso de seu corpo de maneira frenética com nojo.
Para um casal contemporâneo a cena seria motivo de risada. Entretanto, não para os jovens na Inglaterra de 1962. A revolução sexual esperava para acontecer. Se a noite de núpcias de nossos protagonistas tivesse sido adiada por uns anos, o final da obra não teria sido triste. Aquela foi a última noite juntos de ambos. Eles brigaram, e Florence chegou a sugerir que eles vivessem juntos e que ele, se quisesse, poderia dormir com outras mulheres. Para Edward a sugestão foi de extremo insulto.
Certamente, depois cada um seguiu a sua vida. Contudo, aquela foi a “primeira vez” que muito marcou a trajetória de cada um. Eram vítimas da pesada herança de inibição sexual vitoriana que seria transformada com a revolução sexual nos próximos anos.

Resenha: Sobre Ética e Imprensa

Resenha desenvolvida na disciplina de Teoria do Jornalismo

O texto do capítulo retirado do livro Sobre Ética e Imprensa de Eugênio Bucci relata uma análise do jornalismo a partir de sete pecados capitais e dez mandamentos propostos por Paul Johnson.
Antes de iniciar sua discussão, Bucci comenta a respeito de outros dois autores que fizeram listas de pecados que merecem atenção. Um deles é Marcelo leite e cinco dos seus problemas são destacados por serem preocupantes. O outro é Ciro Marcondes Filho, que escreveu sobre doze deslizes em seu livro A saga dos cães perdidos, merecendo destaque seu décimo segundo que diz respeito à omissão da identidade do jornalista para obter confidências. Eugênio Bucci optou pela grade sugerida por Johnson pela simplicidade com que ela organiza o debate.
O primeiro dos pecados é a distorção que pode ser deliberada (mentira deslavada e consciente), facilmente confundida com abuso de poder, sendo que no caso do Brasil ela não se deve apenas à má intenção de editores e donos de jornais, revistas ou emissoras de televisão e rádio, mas tem uma origem na propriedade dos meios de comunicação eletrônicos de massa, já que o grupo que exerce o monopólio fala sozinho no espaço público sem sofrer contestações. A outra distorção é a inadvertida, que diz respeito estritamente à competência interna das redações. A pressa em publicar uma revelação ainda incerta para sair na frente da concorrência é uma das principais causas dessa distorção. O segundo pecado é o culto das falsas imagens, que diz que a conseqüência da confecção da realidade espetacular se materializa nesse culto. As personagens são reais, como pessoas de carne e osso, e falsas porque sua composição segue uma coerência mais dramática do que factual. As imagens têm grande poder, determinando quais serão os temas do debate público. “A imagem organiza as palavras e passa a ser uma instância do discurso e do pensamento”. Aqui o autor se utiliza dos argumentos de Walter Lippmann, que diz que o culto dos estereótipos (imagens que as pessoas trazem dentro da cabeça e que possibilitam a compreensão do mundo) já fazia parte da natureza do relato jornalístico antes do advento da televisão, e que depois o problema se agravou. O terceiro pecado é a invasão da privacidade, já que a fofoca vende cada vez mais, gerando mais protestos. Como exemplos Bucci cita os casos de Lady Di, Bill Clinton e Mônica Lewinsky e o caso Collor. Para ele o ponto crítico não é a informação em si, mas o modo como ela é explorada pela imprensa. O sensacionalismo prejudica o jornalismo em todos os campos, principalmente no desrespeito aos padrões de elegância. Outro problema diz respeito à privacidade dos pobres que quando desrespeitada, não desperta a menor crise de consciência. O quarto pecado é o assassinato de reputação, que ocorre pela imprensa através da distorção deliberada ou inadvertida. Um caso que abalou muito a vida de acusados inocentes, vítimas de distorções inadvertidas cometidas pelos jornalistas, foi o dos acusados de abuso sexual em crianças do maternal na Escola Base em São Paulo. O quinto pecado diz respeito à superexploração do sexo. Paul Johnson adverte os jornalistas “para que não cedam às demandas dos chamados baixos instintos”, já que o sexo é um assunto preocupante. No Brasil, não só as classes mais pobres sustentam a audiência do sexo, mas também os adeptos de outras camadas sociais. O sexto pecado fala sobre envenenamento das mentes das crianças, chamando atenção para o fato de que o jornalismo não é o maior culpado. A indústria de games e a publicidade são também vilãs. O último pecado diz respeito ao abuso de poder. “Não é a veiculação de conteúdos que precisa ser monitorada pela autoridade, mas o poder que precisa ser limitado”. No Brasil as emissoras de televisão saem impunes quando distorcem as informações, o abuso de poder caminha sem a menor perspectiva de controle.
Após explicar e exemplificar os sete pecados, o autor cita dez mandamentos (que funcionam como antídotos) propostos por Johnson, que devem nortear o trabalho dos jornalistas e orientar o público.
Para concluir seu raciocínio, Eduardo Bucci faz três comentários críticos com base nos pecados e mandamentos, caracterizando algumas idéias como o mito da opinião pública, utilizando exemplos da Revolução Francesa e do Iluminismo e conceitos de outros autores, como Milton Meira do Nascimento, Jurgen Habermas, C.W.Mills e Rui Barbosa. Ele diz que o jornalismo deve continuar a trabalhar para o público e para a democracia, e os jornalistas devem ter um compromisso “com a observância e o aperfeiçoamento das regras democráticas”. Outra idéia é a do fantasma da manipulação, que não é assim tão poderoso, senão “a sociedade seria apenas uma espécie de curral dominado por capatazes maquiavélicos”. Aqui o autor cita o importante trabalho de Theodor Adorno e Max Horkheimer a respeito da manipulação. Seu último comentário discorre sobre a indistinção entre meios de comunicação e imprensa. O primeiro pode se dedicar exclusivamente ao entretenimento e o segundo deve noticiar e interpretar os fatos e dar espaço às idéias e aos debates de interesse público. Dessas particularizações surgem diferentes éticas.
Para construir seu texto, Eduardo Bucci utilizou-se principalmente dos argumentos de Paul Johnson, dando uma qualidade melhor à sua obra. O texto é longo, seu tom é sério, porém fácil de entender, seus exemplos deixam sua argumentação mais clara diante do assunto abordado.

Resenha: O Último Jornalista

Resenha desenvolvida na disciplina de Teoria do Jornalismo


O texto introdutório retirado do livro O Último Jornalista, de Stella Senra fala sobre a imagem e o jornalista e o que aconteceu, principalmente na década de 1980, na construção dessa imagem. O motivo pelo qual a autora escreveu o livro foi o interesse pela imagem cinematográfica do jornalista, já que o cinema vem propondo imagens referentes às mais variadas atividades profissionais.
Para compor seu texto, Senra utiliza os argumentos de outros autores, como Serge Daney (crítico de cinema e televisão) que aponta as mais recentes transformações da imprensa contemporânea como um destaque na construção da figura do jornalista. Daney sugere o uso de clones robôs para as tarefas mais simples como a meteorologia e as informações de trânsito no lugar dos jornalistas, já que estes estão sujeitos ao aparato técnico da televisão para se tornarem imagens dignas da confiança do público. Essa adoção da figura do clone não representa um desprezo pelo jornalista “de verdade”, mas sugere um mundo de imagens como fenômeno contemporâneo, que solicita novas atitudes tanto da parte dos jornalistas, quanto do seu público. Nesse ponto, a autora questiona que a adoção dos robôs não deveria nos chocar, pois, dando o exemplo do telejornal da Rede Globo, ali os apresentadores eram duas imagens alheias a noticia, controlando a expressão do seu rosto e a direção do seu olhar, apenas para nos fazerem crer no seu papel. Entretanto, a manutenção dessa imagem não se realiza só por quem a faz, pois o telespectador (apesar de convencido de que esse “alguém” do outro lado da tela só tenha como habilidade o “fazer” da imagem) também exige a presença humana nesses corpos ocos. Para o crítico, a adoção pelo jornalismo televisivo da imagem pura e simples, deixa claro seu caráter incontornável no nosso cotidiano.
No mundo contemporâneo, o jornalista da imprensa escrita também se vê cada vez mais solicitado a exibir sua pessoa, transformando-se em uma “personagem”. O processo de espetacularização do profissional de imprensa parece ter alcançado uma dinâmica específica, sobretudo devido à modernização dos jornais em que a informática e a racionalização técnico-administrativa vêm dando forma à empresa jornalística. A informatização levou à normatização da produção editorial, inaugurando novos métodos de trabalho e impondo à maioria dos profissionais de imprensa uma outra compreensão da sua atividade.
No corpo de seu texto, Senra faz uma análise cronológica e observa as transformações que o jornalista sofreu, sobretudo na segunda metade do século. Até os anos 50 só os jornalistas faziam parte do processo de fabricação do jornal. Foi nesse contexto, que novas linhas ajudaram a compor um novo perfil do jornalista, o boêmio já conhecido e o sério com uma missão. Jânio de Freitas, cronista da Folha de S. Paulo, menciona o jornalismo boêmio como um prazer em exercer a profissão, sem disciplina e com muita liberdade. O jornalismo dos anos 60 e 70, exercido sob um regime ditatorial e censura de imprensa, lutou em defesa da liberdade. A partir da década de 80, a situação política se modifica e o capitalismo se transforma, interferindo no destino das empresas, repercutindo na condução dos negócios jornalísticos e na atividade de seus profissionais. A produção da informação se modificou e a notícia se desligou de seu contexto, reduziu em tamanho, buscando um contato mais rápido e direto com o leitor. A partir dos anos 80, a imprensa gera uma nova capacidade de mobilização política e de controle social, agora pela via predominante do mercado, figura que passa a ser insistentemente invocada, tanto no que diz respeito ao controle social, quanto em relação à capacidade de mobilização política pela imprensa. A partir de então, a atuação dos jornalistas passa a se basear muito mais na sua sintonia direta com o mercado, já que essa nova força vai de agora em diante dar legitimidade ao jornal enquanto veículo de comunicação. Ainda no contexto da década de 80, a autora utiliza o argumento de Laymert Garcia dos Santos, que distingue a imprensa brasileira com três funções principais: o jornalismo como um serviço público (que considera o leitor como cidadão e usuário e o jornalista como responsável pela produção da notícia); como técnica (em que o leitor é apresentado como um alvo e a atividade do jornalista têm mais ênfase no tratamento do que na produção da informação); e como arte (o leitor é visto como público, e a informação passa a oferecer um aspecto estético). Ainda, segundo Garcia dos Santos, ao longo desses anos, a questão da imagem do jornalista emerge com toda a sua força, o profissional vai querer expressá-la de toda maneira.
Para outro escritor, também citado por Stella, Anthony Smith, a figura do autor desapareceu na imprensa dos Estados Unidos a partir do momento em que o texto jornalístico e a própria função da escrita passam a não depender mais do nome de um único indivíduo. Nesse período de aprofundamento do anonimato, muitos jornalistas se expuseram, transformando-se em estrelas, atuando em contraponto com o anonimato, que fez com que o profissional perdesse o seu foco, obrigando-o a procurar uma imagem.
Após essa breve explicação da imagem construída pelo jornalista ao longo das décadas, Stella retoma o exame das imagens cinematográficas do profissional de imprensa de que dirá seu livro a respeito. A prática jornalística atual funciona como o vetor que conduz os filmes e determinam sua personagem principal. Seu livro será dividido em dois conjuntos: o primeiro destaca a figura exemplar da vocação jornalística como ponto de convergência entre a sua definição pela prática cotidiana da imprensa e o que o cinema americano clássico propõe como modelo narrativo; o segundo conjunto, que dá título ao livro, retrata o papel da tecnologia tanto na construção quanto nas transformações da figura do jornalista. A autora irá ilustrar o desenvolvimento de sua análise com filmes e seus diferentes focos.
Para a construção de sua introdução, Stella Senra não só se utiliza do argumento de outros autores, mas também faz algumas anotações à parte do corpo do texto, citando fatos relacionados ao assunto e comentários que considera importante, dando uma qualidade melhor à sua obra. Num tom sério, porém não monótono, a autora exprime seu pensamento e sua análise.

Resenha: Sempre Alerta

Resenha desenvolvida na disciplina de Teoria do Jornalismo


O texto retirado do livro Sempre Alerta, de Jorge Cláudio Ribeiro mostra como não é fácil a vida de um jornalista, através de diversos aspectos que permeiam sua profissão.
Os chefes são as figuras mais temidas pelos jornalistas, pois são eles que ditam as regras e servem de entrada para o universo do mundo da redação. Aliás, é esse o foco da narrativa: o mundo dos jornais. Quem tem o manejo da equipe e da carreira do profissional de quem lhe está submetido é o editor, assim muitos redatores tendem a redigir de acordo com o enfoque dos chefes.
Para seduzir os jornalistas, Cláudio Ribeiro conta que a prática do aliciamento (sedução, suborno, incitação) é muito comum para ganhar a confiança do indivíduo, principalmente no caso dos novatos para conquistar a submissão. Nesse ponto entra o valor do salário, não só em números especificamente, mas como um símbolo que mede a dedicação e competência do profissional.
O prestígio que um jornalista recebe diante de uma matéria publicada também faz parte dessa trama envolvida no aliciamento. Segundo o autor “a assinatura de matéria exerce forte atração, sobretudo para os jornalistas iniciantes que pretendem adquirir visibilidade”.
Entre os jornalistas de uma redação é comum o laço em grupos, em que os integrantes compartilham afinidades e ajudam uns aos outros. Nesse aspecto, um chefe bem sucedido e bem entrosado com a sua equipe, sabe reconhecer seu potencial e às vezes também compartilha do prestígio.
A promoção de um profissional inexperiente nem sempre é vista com bons olhos, já que ele ainda não lidou com diversas situações e lhe faltam termos de comparação. Cláudio Abramo diz no texto que “o jornalista precisa ter muito contato com o mundo exterior”. Aliás, o texto de Ribeiro é cheio de citações e comentários de outros autores como Robert Darnton, Karl Marx, Lins da Silva e o próprio Abramo, já citado. O autor também extrai informações do Manual da Folha de S. Paulo, assim ele enriquece seu texto no curso de seu raciocínio.
Ribeiro diz também que para completar o sistema de aliciamento, a coerção (repressão) também é necessária para a disciplina e faz parte da vida do profissional. A disciplina garante o monopólio da gerência.
A tensão também é uma característica da vida de um jornalista, que traz muitos pontos negativos na produção, ela mata a criatividade. A hora mais crítica da tensão é a hora do fechamento, em que os nervos afloram. Segundo o manual da Folha “deve tomar uma série de decisões em curto período e fazê-los cumprir com energia”. As edições diárias são as que mais exigem do profissional, assim é necessário um grande esforço para aparecer com freqüência e ganhar destaque. A rotatividade, justificada pelo autor como rotina e não como lamento, também gera tensão, já que o profissional precisa adaptar-se a novas situações dentro de curtos períodos de tempo.
O duplo discurso, item também discutido por ribeiro, revela que o jornal tem um duplo interesse, como serviço público e como meio de ganhar dinheiro.
A confiança e a competência também permeiam os jornalistas, já que ganham confiança quando demonstram competência. Porém, quando se ganha muita confiança, o profissional se sente com um poder que não lhe pertence, o prestígio sobe à cabeça levando-o a achar que também é dono do jornal.
Diante dos vários aspectos discutidos e, de outros que estão presentes no texto, parece que o autor faz uma espécie de terrorismo acerca da profissão. Coloca medo e apreensão, dá exemplos daquilo que é mais difícil, do que exige mais cuidado na vida do jornalismo. Ele mostra com exemplos e depoimentos de outros autores a realidade como ela é na pele, afinal todos sabem que a vida de um jornalista não é nada fácil. Assim ele deve estar sempre alerta ao chefe, aos fatos, às oportunidades, ao aliciamento, à coerção, à disciplina, aos colegas de redação, á tensão, a rotatividade, ao ritual da empresa, ao próprio ego. O texto serve então de alerta ao jornalista, num tom sério, mas com o gelo quebrado por comentários e exemplos.