Trabalho desenvolvido na disciplina de Jornalismo Multimídia envolvendo conceitos de violência e o holocausto a partir da análise de alguns autores e discussão com professores
Durante o segundo semestre de 2007 o primeiro ano de jornalismo da Facamp (Faculdades de Campinas) trabalhou o tema da violência em Auschwitz com os professores Carlos Minchillo e Silvio Rosa. Como leitura fundamental foram debatidos em sala de aula o texto “Educação após Auschwitz”, de Theodor Adorno e o livro “É isto um homem?”, de Primo Levi.
Em conversa com Silvio Rosa a equipe do blogue Juventude & Violência debateu questões envolvendo violência, limbo, campo de concentração, individualismo e gestão, além de fazer referências a outros autores ligados ao assunto.
Sílvio Rosa Filho, 44 anos, é professor de filosofia e diretor adjunto da Facamp. É formado em filosofia pela Universidade de São Paulo, defendeu tese de doutorado sobre Kant, Hegel e o cinismo contemporâneo.
Introdução
Iniciando com a pergunta direta: quem é violento? podemos perceber que a resposta está na ponta da língua e parece bastante simples: violento é o outro; quanto a mim, o que me cabe é denegar a violência. É sempre o outro que aparece como indigitada terceira pessoa do singular e exerce a violência diretamente: bate, combate, rouba, seqüestra, aprisiona, tortura, humilha, estupra e mata. Ou, indiretamente, anônima terceira do plural: são os outros que exploram, oprimem, corrompem, discriminam, intimidam, apavoram, bombardeiam, excluem. Tudo se passa como se, entre mim e você – nós mesmos, portanto, menos o outro – fôssemos habitantes de um mundo distinto: cá entre nós, “cordiais”, propensos à generosidade, pacíficos, isentos de preconceito de raça ou de credo, intrinsecamente, seríamos os não-violentos.
A violência é costumeiramente exercida nesta vida e já na chamada seconde life. Ela não deforma apenas a vida doméstica; ela se manifesta nos fluxos e refluxos, no ir e vir dos itinerários de trabalho e lazer; nos próprios ambientes profissionais onde se azeitam os mecanismos de competição e de carreira; nos espaços e equipamentos que formatam o “tempo livre” sob moldes do entretenimento, da preparação e da iniciação multimidiáticas à violência. Logo, à força de se configurar tão onipresente, começamos a suspeitar que a violência é algo mais abrangente do que um fenômeno de conjuntura, algo mais sério do que uma ocorrência virtual. Imaginem um psicanalista de outras eras teletransportado num piscar de olhos para o interior desse quadro atual, um tanto sombrio e claustrofóbico: afora a multiplicação de casos clínicos de síndrome do pânico e a medicação cavalar de transtornos bipolares, ele poderia reconhecer, na maioria de nossos contemporâneos, sintomas de delírio paranóico; delírio certamente acentuado, porém, delírio dotado de um teor objetivo.
Hannah Arendt e os conceitos de: normais, o limbo, o inferno, o purgatório e o paraíso
Os “normais” seriam uma massa patologicamente ambivalente, bem-vinda para melhor gestão de desejos que se desdobram ao infinito (por definição, insaciáveis) e de medos que involuem rumo à fobia (inapaziguáveis). Em outros termos, quanto mais organizada é a violência, quanto mais ela assume a figura de uma tarefa rotineira, tanto pior e tão menos visível é o funcionamento dessa máquina de dominação a que estamos chamando de violência. Vocês estão lembrados de que Himmler, a partir de 1936 o homem mais poderoso da Alemanha, não era um “boêmio armado” como Goebbels (a expressão é de Heiden), nem um criminoso sexual como Streicher, nem um louco furioso como Robemberg, nem histericamente fanático como Hitler, nem um aventureiro como Göring. Himmler, o homem mais poderoso da Alemanha, demonstrou a sua suprema capacidade de organizar as massas, partindo do pressuposto de que a maioria dos homens não era nem boêmios, nem fanáticos, nem aventureiros, nem maníacos, nem loucos furiosos, nem fracassados, mas, acima e antes de tudo, bons chefes de família, empregados mais ou menos responsáveis, gente ordeira – numa palavra: “normais”. Hannah Arendet assinala o seguinte: o homem da massa, a quem Himmler organizou para os maiores crimes de massa jamais cometidos na História, tinha os traços do homem “normal”; de resto, o próprio Himmler era um filisteu, ou seja, tido como gente normal.
Hannah Arendt lembra que, por força do hábito, tentamos compreender psicologicamente a conduta dos presos dos campos de concentração e dos homens da SS, quando o que é preciso compreender é que a psique humana pode ser destruída mesmo sem a destruição física do homem. Como resultado surgem seres inanimados, que já não podem ser reconhecidos psicologicamente: surgem mortos-vivos num limbo onde o que importa não é o princípio niilista de que “tudo é permitido”, mas o princípio no qual o bom senso e as “pessoas normais” se recusam a acreditar: o princípio de que “tudo é possível”. Delineia-se, então, uma atmosfera patológica de irrealidade habitada por imaginações amedrontadas. É que, instintiva ou racionalmente, todo mundo tem alguma consciência do abismo que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos-vivos; por isso, os sobreviventes não conseguem oferecer senão uma série de ocorrências relembradas, que parecem tão incríveis tanto para os que as relatam como para os que as ouvem.
Também à mente de Hannah Arendt, na companhia da qual estamos certamente melhor do que sozinhos. No final d’O Sistema totalitário, ela considera que os campos de concentração podem ser classificados em três tipos correspondentes às três concepções ocidentais básicas de uma vida após a morte. Ao limbo correspondem as formas destinadas a afastar da sociedade todo o tipo de elementos indesejáveis, supérfluos e inoportunos: os refugiados, os apátridas, os marginais e os desempregados. O purgatório é representado pelos campos de trabalho onde o abandono se alia ao trabalho forçado, desordenado e, na maior parte das vezes, economicamente inútil. O inferno é representado literalmente por aqueles campos que os nazistas aperfeiçoaram e onde toda a vida era organizada, completa e sistematicamente, de modo a configurar um laboratório de dominação total e causar o maior tormento possível.
Em comum a esses três tipos de destino está o fato de que o paraíso estaria irremediavelmente perdido. E o certo é que dali ninguém passa para melhor. O purgatório se apaga como lugar de transição, sob a inscrição sinistra de Auschwitz: “o trabalho liberta”. Confinadas, na verdade essas massas humanas são tratadas como se já não existissem, como se o que sucedesse com elas não pudesse interessar a ninguém, como se já estivessem mortas. É como se algum espírito mau, acrescenta a autora, tomado de alguma loucura, brincasse de suspender essas massas por certo tempo entre a vida e a morte.
(Hannah Arendt viveu as grandes transformações do poder político do século XX. Estudou a formação dos regimes autoritários (totalitários) instalados nesse período - o nazismo e o comunismo - e defendeu os direitos individuais e a família, contra as "sociedades de massas" e os crimes contra a pessoa).
http://noticias.uol.com.br/licaodecasa/materias/ult1789u616.jhtm
Violência natural e violência revelada
Essas comparações e correspondências sem dúvida não indicam uma dificuldade em situar a violência, o seu avanço e a sua magnitude contemporâneas. Fossem apenas analogias, de um ponto de vista estritamente lógico não passariam de induções imperfeitas. Sucede que a lógica formal está desarmada para fazer frente ao argumento que se formula pela autoridade do capital financeiro. Não parece equipada para avaliar esse laboratório de administração total, regido pelo princípio de que tudo é possível, onde as emergências tradicionais de castigo teológico-político se reúnem, de modo peculiarmente sincrético, às estruturações de uma nova insensibilidade sócio-cultural, às dinâmicas do cálculo para gestão de catástrofes e aos investimentos para aprimorar a tecnologia da dominação até o absurdo. Para falar como os teólogos antigos, evitar explicações angelicais e buscar uma localização menos imprecisa do fenômeno em pauta, talvez seja oportuno transpor seu senso de discernimento e distinguir duas modalidades: a violência natural e a violência revelada.
A do tipo natural seria a violência banalizada num tempo unidimensional, numa eterna repetição no presente imediatista, pressupondo a acelerada desvalorização do passado e do futuro, a violência-entre-aspas-natural se exerce sem que seja preciso ter fé na ulterior eficácia das ações violentas. Como o futuro está destituído de lastro, essa modalidade de violência recorre à natureza como se esta fornecesse um arsenal de imagens contíguas: a sobrevivência toma ares de um tribunal de última instância; as regras do rebanho, de ordem inelutável; o predomínio dos mais fortes, de fato consumado; a imagem da espécie delineia o homem simultaneamente como mamífero efêmero e primata dominante. Haveria, ademais, uma autogratificação epidérmica por compreender o mundo da violência como ordenação por assim dizer natural. Assim, o movimento violento seria tal que contraria o senso-comum: precisamente por afastar os elementos massificados do seu lugar-natural-sem-aspas, coagiria tais elementos à aceitação da violência, artificialidade invisível.
A violência revelada seria a manifestação desse artifício com alguns matizes e uma dezena de preliminares. Sabemos que quando o tecido social vai se esgarçando pela concorrência selvagem, o recurso cotidiano à violência aparece como um meio aceitável para garantia da sobrevivência. À primeira vista a violência dita revelada é a que provêm de princípios estabelecidos ao lume de uma técnica ou tecnologia superiores, que o saber-fazer de um gestor de conflitos traduz em índices disto e daquilo, em roteiros mais ou menos eficientes de vigilância (big brother is watching you), em estratégias e táticas de expedição punitiva (hoje em nome do combustível fóssil, amanhã, por que não?, de lençóis freáticos). A violência revelada, entretanto, nunca é perfeita, nem exaustiva: digamos que, nela, algo se esconde ao mesmo tempo em que se manifesta. Para resumir: esse tipo de violência subtrai-se a si mesmo, ao passo que se revela em violências meramente pontuais ou em redes interligadas de violência. Em todo caso, a violência revelada estaria a um passo da violência negativa, aquela que se expande para outras esferas e que insiste, como a velha dialética, em nunca responder pelo nome.
Individualismo
A importância do individualismo é dupla. No primeiro lado dessa moeda, temos o individualismo tout court, ou seja, a crença de que o indivíduo possui uma realidade principal, absoluta ou quase sagrada, ao passo que a sociedade seria algo secundário, derivado, relativo. Ora, maior é o grau de isolamento ou de atomização social, mais propício é o terreno para a evolução do individualismo de massa e da violência coletiva que lhe é correlata; estes, inversamente, seriam menores ali onde pessoas se unem, atuam de comum acordo e abrem espaço para o exercício do poder, caso a política ainda pudesse ser escrita com letra maiúscula e não se reduzisse a prolongamento da violência por outros meios.
Do outro lado da moeda desenha-se a efígie do que Robert Bellah designou (Os hábitos do coração) como “individualismo expressivo”. Oposto ao individualismo utilitarista, sustenta-se que cada pessoa possui um núcleo único de sentimento e intuição, o qual deve ser desenvolvido ou expresso para que o indivíduo alcance a sua singularidade e para que ele possa, sob certas circunstâncias, fundir com outras pessoas, com a natureza, ou com o cosmos em sua totalidade. Nas palavras de Shapiro, a título de contra-exemplo, note-se que essa busca de integração e de síntese apresenta-se dotada de “conteúdo negativo”: quando Auguste Rodin, ao esculpir A porta do inferno, não encontrara a soleira onde instalar sua obra, deixou-a confinada às exposições em museu, ou então, à soleira de uma catedral invisível.
O que expressa a sorte dos que escaparam ao individualismo utilitarista? Retomem o livro de Primo Levi, É isto um homem?, em que se sucedem os ciclos do confinamento em campo de concentração: sair, voltar, trabalhar, dormir, comer, adoecer, sarar ou morrer. Se no século de Homero o poeta era o tecelão dos sonhos, no século da violência, o texto de Levi mais parece alinhavar pesadelos. Nestes, ganha dimensão expressiva um outro ciclo, o ciclo dos predicados atribuídos à figura dos prisioneiros: apaniguados, tosquiados, desinfetados, tatuados, enfileirados, ritualizados, “babelizados”, cotidianamente alucinados, hierarquizados, promiscuídos, “moribundizados” e assim por diante. Em É isto um homem?, o alvorecer surpreende os prisioneiros “como uma traição”. Na Odisséia, a chamada epopéia das auroras termina com a deusa da sabedoria: Palas Atena, disfarçada em Mentor, estabelecia um tratado de paz entre os partidos em conflito, cada um dos quais iria regressar para o seu lado; as armas, antes em punho, haviam feito ressoar as suas lâminas; mas afinal, sob a ordem da deusa, as espadas tilintaram por caírem ao chão.
A experiência de Auschwitz não cessou de se repetir.
É possível que, em tempos de invenção social desacelerada, a terrível atualidade do texto de Adorno resida justamente em seu fracasso. Mas, pelo que se viu, antes de obscurecer ou atenuar o obscurantismo, vale a pena não cair na cilada de tomar a violência como fato consumado. No final das Cidades invisíveis, Ítalo Calvino dizia haver duas maneiras de não sofrer o inferno de todos os dias. A primeira, a mais fácil, é também aquela onde a maioria se compraz: aceitar o inferno, dele tornar-se uma parte a ponto de sequer poder enxergá-lo; nas palavras de um jovem poeta, ter “alma de novela”. Abro parêntese: certa vez, alguém escaldado nesses assuntos frisou: assim como a felicidade completa é irrealizável, também irrealizável é a infelicidade completa. Isso significa que, em meio a sinais de alarme prestes a soar por toda parte, princípios inegociáveis de reciprocidade se insinuam e chegam a se instaurar: às vezes, fechando parêntese, preenchem vazios institucionais, criam valores simbólicos para ação conjunta. Mas, para voltar a Calvino, a segunda maneira de não sofrer o inferno de todos os dias é arriscada e requer uma atenção e um aprendizado contínuos: no meio do inferno investigar e saber reconhecer quem e o quê não é o inferno, fazer com que perdurem e ceder-lhes o devido lugar. Eu me arrisco a dizer que, embora permaneça improvável e não possa valer como panacéia, a educação para a autonomia, no meio do inferno, não é o inferno. E a juventude, acrescentemos, sitiada entre a adolescência intérmina e o ingresso cada vez mais tardio na idade adulta, talvez acorde de sua prolongada hibernação. Adorno era otimista uma vez que é muito difícil que Auschwitz não se repita, a tendência é que se repita, mas segundo ele é possível. O dever do educador é acordar para esse problema para não entrarmos em uma contagem regressiva para o fim do planeta, causado por razões humanas.
Auschwitz e gestão
Temos toda uma série de situações excepcionais em relação a uma vida em sociedade. Quando se viu Auschwitz, se viu uma sociedade administrada; uma administração no campo de concentração muito racional, muito calculada e muito eficiente, as pessoas não ficavam apenas aprisionadas, trabalhavam de graça, quer melhor negócio? Lá acontece a idéia de gestão. Tudo se tornou objeto de gestão, isso foi uma novidade em Auschwitz.
Administração faz parte de nossas vidas (relações pessoais, conflitos, casa, etc). A palavra gestão está em toda parte. Você termina uma análise com um psicanalista para lidar melhor com seus problemas. A cabeça das pessoas adota um modelo de administração. A primeira vez que a administração se tornou um modelo total da sociedade foi ali, era uma espécie de laboratório para aplicar os princípios de gestão. Existem muitas maneiras de você se organizar.
O mundo se transformou numa empresa que precisa dar lucro de maneira enxuta. Auschwitz foi então um laboratório. Um exemplo disso hoje é que o Estado brasileiro deve ser administrado como uma empresa para dar lucro e a maioria das pessoas pensa assim. Não fazia sentido antes, o Estado não era pensado para dar lucro, o Estado tinha interesses diferentes dos interesses das empresas. Interesses que dizem respeito à esfera privada. Foi possível então que se propagasse o que fosse bem sucedido, o marketing da idéia de gestão espalhou para a vida individual das pessoas e em grupo. É atual nesse sentido e a própria palavra “administração” tomou conta da cabeça das pessoas.
Seria essa administração um ato egoísta de cada indivíduo?
Não há a menor dúvida. Isso é uma violência, a partir do momento em que dizem para você como você deve pensar, já estão cometendo uma violência. O papel da educação é tirar o indivíduo daquilo que parece natural para que ele ingresse em uma vida social.
Adorno diz em seu texto que o emprego das palavras molda tudo o que você pensa. Se você usa a palavra “administra”, você já está dentro do campo de significação que foi inaugurado com Auschwitz. É isso que ele quer dizer quando a sociedade é uma sociedade totalmente administrada, o modelo de administração se tornou total e veio para ficar. Essa é uma das dimensões do problema, é a idéia de que a gestão se tornou um modelo das relações sociais. Não significa que ele funcione plenamente, significa que ele funciona como a referência a ser seguida.
O contra-modelo de Adorno é dizer que há uma domesticação das pessoas como se elas fossem bichos, e seguem regras, principalmente aquelas que elas não sabem que existem, que foram ditadas por um anônimo. As pessoas que roubam não seguem regras.
O dono de um grande Shopping sabe que o roubo está previsto, a regra existe porque o roubo é fato. Um administrador que sabe que sua loja corre risco de roubo, investe em segurança. E no final do ano ao fazer o inventário ele sabe que faltaram algumas peças de roupa que foram furtadas. A solução achada pelo administrador é embutir no preço das que são vendidas as que vão ser roubadas de modo a não ter prejuízo.O roubo é um nível de transgressão de regras. Quando estou na posição do administrador, eu enxergo um pouco o modo de funcionamento da sociedade que é um modo amoral. É impensável imaginar uma sociedade brasileira sem roubo. E se em um determinado setor não houver mais roubo haverá uma grande confusão porque a sociedade está organizada em função desses acontecimentos.
Meta-regra é quando o administrador toma as regras com distância de alguém que não está jogando o jogo diretamente, ele está pensando como entrar nesse jogo de maneira a beneficiar ele próprio e sua empresa. Mas existem as empresas concorrentes porque estamos falando do mercado, e mercado significa concorrência e se tem concorrência existem certas regras que nem sempre são respeitadas (espionagem industrial da McLaren na Ferrari, por exemplo). Concorrência não significa o elogio da diversidade, significa que eu vou me aliar àqueles que são aliáveis e vou montar um monopólio.
O problema que está detectando todos os autores lidos em sala de aula (pelo 1º ano) é que a sociedade contemporânea tende a naturalizar as nossas relações, do nosso tempo. Nós costumamos projetar para o passado ou para um outro povo porque somos incapazes de enxergar como eles são diferentes de nós. Uma das maneiras de se naturalizar é transformar tudo em gestão. Outra é a banalização. As pessoas entendem muito mais quantidade do que qualidade.
Naturalizar significa apagar a história. Foi sempre assim e será sempre assim. Os autores estudados pela classe vêm de certa forma enfrentar essa violência e dizer que não é uma violência, é natural, é um processo histórico. Esses autores falam em novos tempos, tempos modernos. E quando eles pensam nisso, é um pouco do que se vê em livros de história.
Thomas Hobbes observou em 1600 os ingleses e notou que alguma coisa estava em mudança: o indivíduo que nascia nos tempos modernos era diferente do indivíduo que nascia na idade média ou na Grécia ou em Roma. Ele tinha o desejo como característica e queria cada vez mais.
O professor Carlos Minchillo abordou com o grupo o tema da violência originada pelo holocausto que ainda é mantida e também comentou a forma como eram tratados os prisioneiros nos campos nazistas. Também questionou o fato de tomarmos cuidado ao fazer uma comparação com um campo de concentração e a nossa sociedade no século XXI.
Carlos Cortez Minchillo, 43 anos, é professor da Facamp, bacharel em Letras (francês e português) pela USP, mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp.
A violência parece fazer parte da história da humanidade. Cada época, de acordo com os meios disponíveis e também em função de questões específicas, testemunha manifestações diferentes de violência. Manifestações distintas em suas causas, em seus alvos, em suas armas, mas que respondem a um impulso que parece ser atemporal, que se aninha em qualquer cultura e que pode implodir qualquer esquema de aparente civilidade. Nesse sentido, sim, a violência do holocausto se mantém hoje, seja vitimando ainda os judeus, os homossexuais, os opositores de todas as épocas e de todas as sociedades, seja escolhendo como alvo outros atores sociais. A agressividade contra minorias, contra indivíduos ou grupos divergentes, o ódio religioso e a revanche de natureza política, econômica ou social alimentam hoje uma violência que também explica em parte o holocausto. Pode não haver fornos crematórios, mas há índios que são queimados em pontos de ônibus.
Alguns procedimentos dos campos de concentração nazistas - e que foram e continuam sendo aplicados em muitas outras situações - são evidentemente violentos do ponto de vista físico, psicológico e moral. Para começar, a perda sem apelo do poder de decisão, do livre arbítrio: ser levado à força, ser apartado dos pertences, dos vestígios do passado (a casa, as fotos, os documentos, as cartas, os objetos queridos, para não falar dos entes, amigos) sem poder contestar é de uma violência radical. Identificar-se como um número, ter o cabelo cortado, seu submetido a um trabalho exaustivo e compulsório, receber alimentação insuficiente e arriscar-se no próximo minuto a perder a vida, bem, tudo isso significa não reconhecer no outro traços de humanidade. Esse olhar desumanizante é pré-requisito para a violência radical que permite os genocídios porque basicamente diz à exaustão: "eles podem ser submetidos a tudo, pois não são dignos de qualquer respeito".
Quanto a viver em um campo de concentração no século XXI, é preciso tomar cuidado com as metáforas. O respeito à memória de um acontecimento como o holocausto da segunda guerra exige que as comparações fáceis sejam evitadas. Porque freqüentemente se comparam situações de dimensões desiguais. É evidente que há seres humanos hoje que vivem em condições tão ruins ou piores que as dos campos de concentração nazistas. Essas pessoas tampouco têm muito poder de decisão sobre suas vidas, suas iniciativas estão cerceadas por condições de fome, miséria, quando não são vítimas de opressão (religiosa, militar, estatal, civil). Mas ainda que haja muito preconceito e hostilidade, ainda que minorias sofram discriminação, mesmo vivendo no meio de um conflito armado (seja na faixa de Gaza, no Congo ou em algumas favelas brasileiras), apesar de tudo isso, boa parte da humanidade não vive nas condições de um campo de concentração. Existem instituições, grupos, governos que fiscalizam os crimes contra a humanidade e se é verdade que essa fiscalização e assistência podem falhar, podem se corromper, também é verdade que no conjunto impedem que a violência se dissemine impunemente por tempo indeterminado.
Resenha de “É isto um homem?”
Sem heróis nem vilões
O livro “É isto um homem?”, de Primo Levi, relata a experiência do autor no campo de concentração nazista de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial. Seu relato, ao contrário de muitos outros, não mostra o ódio e revolta ao qual o leitor está acostumado quando fala a respeito do horror dos campos.
O que marca o dia-a-dia daqueles condenados é a humilhação, a situação precária e desumana que os classifica não mais como seres humanos, e sim como animais maltrapilhos e desprezíveis que brigavam por uma concha de sopa e um pedaço de pão.
É por essa razão que, do ponto de vista de Primo Levi, não houve nem heróis, nem vilões naquele campo de moribundos. Os que gozavam de melhor tratamento eram os soldados alemães (ainda que também vivessem naquele horror), que ficavam com as melhores roupas, rações e alojamentos.
O destaque da obra está no não merecimento de um dos lados da guerra, ela é imparcial nesse aspecto, também não conta com bravura os feitos dos soldados, como visto em muitos filmes, já que para o autor não havia ali quem merecesse realce. Traz apenas o relato pessoal de quem não sabia o motivo de ser tão odiado.
Por Ricardo Yudi Gouvêa