Resenha desenvolvida na disciplina de Teoria do Jornalismo
O texto introdutório retirado do livro O Último Jornalista, de Stella Senra fala sobre a imagem e o jornalista e o que aconteceu, principalmente na década de 1980, na construção dessa imagem. O motivo pelo qual a autora escreveu o livro foi o interesse pela imagem cinematográfica do jornalista, já que o cinema vem propondo imagens referentes às mais variadas atividades profissionais.
Para compor seu texto, Senra utiliza os argumentos de outros autores, como Serge Daney (crítico de cinema e televisão) que aponta as mais recentes transformações da imprensa contemporânea como um destaque na construção da figura do jornalista. Daney sugere o uso de clones robôs para as tarefas mais simples como a meteorologia e as informações de trânsito no lugar dos jornalistas, já que estes estão sujeitos ao aparato técnico da televisão para se tornarem imagens dignas da confiança do público. Essa adoção da figura do clone não representa um desprezo pelo jornalista “de verdade”, mas sugere um mundo de imagens como fenômeno contemporâneo, que solicita novas atitudes tanto da parte dos jornalistas, quanto do seu público. Nesse ponto, a autora questiona que a adoção dos robôs não deveria nos chocar, pois, dando o exemplo do telejornal da Rede Globo, ali os apresentadores eram duas imagens alheias a noticia, controlando a expressão do seu rosto e a direção do seu olhar, apenas para nos fazerem crer no seu papel. Entretanto, a manutenção dessa imagem não se realiza só por quem a faz, pois o telespectador (apesar de convencido de que esse “alguém” do outro lado da tela só tenha como habilidade o “fazer” da imagem) também exige a presença humana nesses corpos ocos. Para o crítico, a adoção pelo jornalismo televisivo da imagem pura e simples, deixa claro seu caráter incontornável no nosso cotidiano.
No mundo contemporâneo, o jornalista da imprensa escrita também se vê cada vez mais solicitado a exibir sua pessoa, transformando-se em uma “personagem”. O processo de espetacularização do profissional de imprensa parece ter alcançado uma dinâmica específica, sobretudo devido à modernização dos jornais em que a informática e a racionalização técnico-administrativa vêm dando forma à empresa jornalística. A informatização levou à normatização da produção editorial, inaugurando novos métodos de trabalho e impondo à maioria dos profissionais de imprensa uma outra compreensão da sua atividade.
No corpo de seu texto, Senra faz uma análise cronológica e observa as transformações que o jornalista sofreu, sobretudo na segunda metade do século. Até os anos 50 só os jornalistas faziam parte do processo de fabricação do jornal. Foi nesse contexto, que novas linhas ajudaram a compor um novo perfil do jornalista, o boêmio já conhecido e o sério com uma missão. Jânio de Freitas, cronista da Folha de S. Paulo, menciona o jornalismo boêmio como um prazer em exercer a profissão, sem disciplina e com muita liberdade. O jornalismo dos anos 60 e 70, exercido sob um regime ditatorial e censura de imprensa, lutou em defesa da liberdade. A partir da década de 80, a situação política se modifica e o capitalismo se transforma, interferindo no destino das empresas, repercutindo na condução dos negócios jornalísticos e na atividade de seus profissionais. A produção da informação se modificou e a notícia se desligou de seu contexto, reduziu em tamanho, buscando um contato mais rápido e direto com o leitor. A partir dos anos 80, a imprensa gera uma nova capacidade de mobilização política e de controle social, agora pela via predominante do mercado, figura que passa a ser insistentemente invocada, tanto no que diz respeito ao controle social, quanto em relação à capacidade de mobilização política pela imprensa. A partir de então, a atuação dos jornalistas passa a se basear muito mais na sua sintonia direta com o mercado, já que essa nova força vai de agora em diante dar legitimidade ao jornal enquanto veículo de comunicação. Ainda no contexto da década de 80, a autora utiliza o argumento de Laymert Garcia dos Santos, que distingue a imprensa brasileira com três funções principais: o jornalismo como um serviço público (que considera o leitor como cidadão e usuário e o jornalista como responsável pela produção da notícia); como técnica (em que o leitor é apresentado como um alvo e a atividade do jornalista têm mais ênfase no tratamento do que na produção da informação); e como arte (o leitor é visto como público, e a informação passa a oferecer um aspecto estético). Ainda, segundo Garcia dos Santos, ao longo desses anos, a questão da imagem do jornalista emerge com toda a sua força, o profissional vai querer expressá-la de toda maneira.
Para outro escritor, também citado por Stella, Anthony Smith, a figura do autor desapareceu na imprensa dos Estados Unidos a partir do momento em que o texto jornalístico e a própria função da escrita passam a não depender mais do nome de um único indivíduo. Nesse período de aprofundamento do anonimato, muitos jornalistas se expuseram, transformando-se em estrelas, atuando em contraponto com o anonimato, que fez com que o profissional perdesse o seu foco, obrigando-o a procurar uma imagem.
Após essa breve explicação da imagem construída pelo jornalista ao longo das décadas, Stella retoma o exame das imagens cinematográficas do profissional de imprensa de que dirá seu livro a respeito. A prática jornalística atual funciona como o vetor que conduz os filmes e determinam sua personagem principal. Seu livro será dividido em dois conjuntos: o primeiro destaca a figura exemplar da vocação jornalística como ponto de convergência entre a sua definição pela prática cotidiana da imprensa e o que o cinema americano clássico propõe como modelo narrativo; o segundo conjunto, que dá título ao livro, retrata o papel da tecnologia tanto na construção quanto nas transformações da figura do jornalista. A autora irá ilustrar o desenvolvimento de sua análise com filmes e seus diferentes focos.
Para a construção de sua introdução, Stella Senra não só se utiliza do argumento de outros autores, mas também faz algumas anotações à parte do corpo do texto, citando fatos relacionados ao assunto e comentários que considera importante, dando uma qualidade melhor à sua obra. Num tom sério, porém não monótono, a autora exprime seu pensamento e sua análise.
A evolução
Há 17 anos
Nenhum comentário:
Postar um comentário